terça-feira, dezembro 14, 2004

A amputação deliberada do mercado médico

"A perda de vidas é mais chocante: 2047 mortes evitáveis por ano provocadas pelos hospitais lucrativos, e 2500 mortes por ano em centros privados de diálise renal. "

"O Columbia/HCA — o maior hospital-empresa — usou diversos truques para inflacionar as facturas de cuidados médicos: exagerar a gravidade do diagnóstico, falsificar os registos de despesas que são a base das retribuições dos cuidados médicos, passar doentes dos hospitais de cuidados agudos para os seus hospitais de convalescença e agências de cuidados ao domicílio, cobrando assim múltiplas facturas por um único episódio de doença"

Leiam isto que vale bem a pena. Não quer dizer que concorde com tudo o que lá está, mas dá-nos uma visão que espero que não se torne realidade em Portugal.


Comentários:

Caro Francisco,

Tirando o facto de o artigo ser bastante "tendencioso" (se quiseres depois posso dar-te alguns exemplos, mas a tua experiência, decerto que os descobre), é baseado em alguns centros de medicina privada que cometem ilegalidades (o que é crime - sobrefacturação, má classificação diagnóstica e falsificação de registos) grosseiras mas que constituem um perigo real.
Em primeiro lugar porque estas unidades de saúde são colocadas na mão de executivos de topo, habituados a malabarismos financeiros de contornos duvidosos e não nas mãos de grupos de médicos (que quanto mais não seja têm um dever ético).
Em segundo lugar, compara basicamente os hospitais privados lucrativos, dos hospitais privados não-lucrativos, que serão talvez uma forma intermédia entre o despesismo dos serviços públicos e o "chupismo" das empresas com fins lucrativos.
Levanta um problema que para mim é muito real, que é o facto de as leis de mercado não se poderem aplicar "normalmente", quer porque não existe oportunidade de escolha (concorrência), quer porque a procura não está dependente das leis de mercado mas sim da necessidade, quer porque os seus utentes se encontram num estado de fragilidade (pelo menos emocional), não fazendo muitas vezes a escolha mais racional.

Qual a solução? Não sei. Mas certamente que nem tudo é mau nos centros privados. Se calhar um sistema misto é preferível, mas cada vez mais a Saúde implica elevados custos e um elevado investimento, donde serão cada vez maiores as pressoões para racionalizar e para "dar lucro"...

A ver vamos, mas parte disto também passa pelas nossas mãos...  

Percebo a preocupação mas as vantagens da privatização não são, de forma nenhuma um mito, tal como não são as possíveis desvantagens.

Consegues imaginar quanto custa uma marca como Coca-cola ou Loreal ou Nike ? Quanto dinheiro era necessário para comprar um destes nomes?
Agora imagina que uma rede de hospitais tem uma marca tão valiosa quanto estas... Achas que estavam dispostos a arriscar ?

Claro que no processo de transferência há muitos problemas, mas isso não significa que não se evolua.

Lembra-te que foi a evolução dos sistemas político/económico/sociais que permitiram a existência de sistemas de saneamento e esgotos e esses são ainda mais importantes que o S.N.S. mas não se notam os seus efeitos no curto prazo.

Existem diversos problemas da saúde relacionados com liberdades pessoais e económicas, como a anorexia, a fast-food, os acidentes de automóveis, etc., mas não podemos travar a evolução e o progresso com base nos custos da mudança, quando sabemos que eles serão ultrapassados pelos benefícios do progresso.  

Ó medman não me trates por caro Francisco. Concordo que o texto é um bocado tendencioso mas eu avisei que não concordava com algumas coisas. Quanto ao facto de ser ilegal diz-me que nunca houviste: dizer que o Lobo Antunes de Coimbra faz selecção de doentes (só aceita até X idade e com X comorbilidades, senão diz que não há indicação operatória); os doentes internados à espera de exames vão para casa e voltavam no próprio dia mas contam como tendo estado internados; o hospital de viana queria dar prioridade aos doentes de sistemas contractualizados
Eu não tenho nada contra uma gestão empresializada dos hospitais. Mas acho que só com muita cautela e uma Entidade Moderadora da Saúde forte e actuante (que não existe actualmente) é começava a priovatizar os hospitais. Não só por ter medo para o doente (mas estes estão +/- protegidos pelo perigo de se forem mal "atendidos" poderem processar o hospital e médicos) mas pelas engenharias financeiras que me parece que passariam a ser a norma (ver orçamento estado todos os anos, ver declaração de rendimentos das empresas portuguesas).
Solução boa tb não sei

Hugo Garcia: eu concordo com o liberalismo social, mas como no caso da saúde o mercado (e a marca) não funciona: as pessoas não avaliam se foram bem tratadas ou não e não querem saber se o hospital faz engenharia financeira ou não; mesmo que um hospital tiver má fama, mas for o único na tua região tu tens de ir a esse;
Eu concordo que a privatização dos hospitais (assim como de outros sectores publicos) tem várias vantagens, mas não sei se é igual a progresso ou evolução. Nos EUA, que têm uma medicina fundamentalmente privada há uma forte tendência a aumentar a intervenção do estado na saúde. Em portugal não acho que devamos fechar a porta às privatizações só acho que devemos ir com cuidado e acho que aquele texto aponta vérios perigos que devemos estar à espreita.

Um abraço aos dois e de qualquer forma obrigado pelos vossos comentários  

Desculpa lá o tratamento AMIGO Francisco!!! :)

Quanto ao resto, concordo contigo que é preciso ter cuidado, mas continuo a acreditar que a medicina privada vai ser o futuro em Portugal, resta-nos trabalhar para que seja o melhor possível para todos...

E como tu próprio deste exemplos essas "falcatruas" tb existem nos sistemas públicos.

Abraços  
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