terça-feira, fevereiro 01, 2005

Começo num assunto e acabo noutro

No Centro de Saúde onde estou colocado é habitual os doentes pedirem por telefone para o médico "passar" as receitas da medicação crónica que estão a fazer. Esta prática que também já observei noutros CS, apesar de discutível e alguns dos meus colegas criticarem parece-me natural e proveitosa (se houver comentários depois desenvolverei e desde já digo que não vejo grande problemas de os farmacêuticos darem a medicação habitual a um doente que conheçam para que este não passe alguns dias sem a tomar por falta de receita, embora o desejável é que seja sempre primeiro o médico a passar a receita).
Mas ontem (2ª feira) havia um pedido diferente. Em vez de ser de medicação era para fazer uma ecografia para a Srª saber se estava grávida. Em primeiro lugar aproveito para informar que o teste que se deve fazer para detectar uma gravidez é o doseamento de uma substância chamada beta-HCG. As ecografias devem ser feitas em alturas específicas apenas depois da confirmação da gravidez.
Já tinha eu preenchido a requisição desta análise e entregue à secretária quando o meu médico tutor me confidenciou:
- Esta tem 21 anos, fez um aborto (ilegal) há 3 meses e já tem receio de estar grávida outra vez. É demais!!


Comentários:

interessante em http://www.novadir.pt/entrada.aspx  

Deixa-te de tangas, não me digas que pelo telefone podes avaliar a glicemia de um dibético para saber se necessita de aumentar a dose de anti-diabético oral. E que tal perguntar ao doente se "as tensões estão boas" para ajustar a dose do anti-hipertensor?
Será que não te vai pesar a consciência quando o hipertenso a quem passaste anos a prescrever "Lasique" pelo telefone e que não vês há quase 1 década morrer de enfarte?
As doenças crónicas, como sabes, são tão ou mais graves que os episódios agudos e devem ser acopanhadas com a atenção e o rigor que merecem.  

Deixa-te de tangas, não me digas que pelo telefone podes avaliar a glicemia de um dibético para saber se necessita de aumentar a dose de anti-diabético oral. E que tal perguntar ao doente se "as tensões estão boas" para ajustar a dose do anti-hipertensor?
Será que não te vai pesar a consciência quando o hipertenso a quem passaste anos a prescrever "Lasique" pelo telefone e que não vês há quase 1 década morrer de enfarte?
As doenças crónicas, como sabes, são tão ou mais graves que os episódios agudos e devem ser acopanhadas com a atenção e o rigor que merecem.  

Resposta ao já esperado e pretendido comentário do Betadine:
Não se deve confundir não fazer consultas ao doente para passar medicação, com nunca fazer consultas ao doente. O médico deve programar as consultas de cada doente de acordo com a sua patologia e caracteristicas específicas. A minha experiência é no final de cada consulta o médico diz ao doente para quando precisa de marcar a próxima. Não concordo é que a periodicidade destas consultas esteja subjugada à necessidade de passar a receita.
Haverá certamente doentes com necessidade de consultas mais frequentes que a necessária para passar receitas: patologias agudas, fase inicial de "acerto" da medicação, se estão a ser seguidos por um médico de outra especialidade que lhes passa a medicação.
Mas julgo que há doentes com determinadas patologias (dores crónicas, HTA controlada e medida regularmente por outros profissionais de saúde, ...) que não necessitam de em menos de 6 meses (raramente os vários tamanhos de embalagens permitem passar medicação suficiente para os 6 meses) ir duas vezes à consulta.
Em relação aos anti-diabéticos é claro que um diabético deve ir regularmente à consulta. Mas não é para lhe passarem a medicação. É para tudo o resto.
Posso-te tb dizer que o JC do blog "Desabafos de um médico tem a mesma experiência" (embora reconheça que não serve de justificação).
Um abraço  

Concordo! O problema são os doentes que vão às consultas de 6 em 6 meses e são vigiados por outros profissionais. A grande questão são aqueles com medicação crónica, que estão sem sintomas e que simplesmente não querem saber! E olha que não são poucos os que faltam às consultas maracadas porque sabem que na semana seguinte, quando já não tiverem medicação, deixam o nome e o medicamento que querem com a administrativa e a receita está lá no dia seguinte. Não perdem tempo, não (des)esperam e acima de tudo não aturam o médico chato e rabugento.  

Desculpem, correcção: O problema NÃO são os doentes que vão às consultas de 6 em 6 meses...  
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