sexta-feira, fevereiro 11, 2005

Notícia do Tempo Medicina sobre blogs médicos

A internet na defesa da classe
Médicos na blogosfera

A moda dos blogs chegou à Medicina e com ela a tentativa de reabilitar a imagem da classe médica. Alguns dos clínicos que mantêm diários virtuais afirmam-se convictos da necessidade de denunciar as injúrias de que são alvos na comunicação social. Outros limitam-se a partilhar desabafos.
«Foi incapaz de esconder um enorme sorriso triunfante quando, após ter entrado nas Urgências pensando que estava a abortar, levou entre as mãos o Livro Verde da Grávida.» Em Desabafos de um Médico (http://desaba fosdeummedico.blogspot.com), excertos como este são comuns. Não há quase dia nenhum que quem digita o endereço do weblog escrito por JC, interno do Ano Comum num hospital dos arredores de Lisboa, não se surpreenda com mais um ficheiro clínico.
A definição mais fácil para weblog diz-nos que se trata de uma página de internet com textos datados, organizados por ordem cronológica inversa. Espécie de diário virtual, aqui cabem desabafos, pensamentos, relatos e tertúlias. Tal como no passado aconteceu com as páginas pessoais, também os blogs (nome por que são igualmente conhecidos) podem versar sobre diversos temas e incluir fotografias, som e vídeo. Há-os sobre tudo, desde a política à literatura e a Medicina não é excepção. Especialistas, internos e estudantes aderiram à moda e muitos alimentam sites com reflexões em torno da profissão. O «Tempo Medicina» navegou na blogosfera e entrevistou médicos e aspirantes a clínicos, todos eles bloggers (nome que é dado a quem protagoniza um blog), para averiguar motivações e expectativas. Sempre com a condição de lhes conservar o anonimato, entendido como garante de liberdade de opinião.

Erro médico e jornalistas

Os desabafos de JC assumem a forma de weblog desde Outubro de 2004. Demonstrar a «vertente humana e emocional dos médicos» é uma das suas metas, sobretudo porque o clínico é «tantas vezes encarado como um autómato sem sentimentos que comete erros atrás de erros». Por esta razão, acalenta o desejo de «tentar inverter esse falso estereótipo», transmitindo «vivências e emoções».
Reabilitar a imagem da classe médica junto da população e apagar a imagem negligente que a comunicação social transmite da profissão, parece ser a bandeira de quase todos estes blogs. O autor de Médico Explica Medicina a Intelectuais (http://medicoexplicamedicinaaintelectuais.blogs pot.com) assume a cruzada de combater o erro difundido em torno da profissão. Para este clínico — que sobre si pouco diz, além de que está «inscrito num colégio de uma especialidade na Ordem dos Médicos» —, a «iliteracia é assustadora» e a internet é a arma que usa para a combater. Na apresentação que escreveu para acolher e localizar quem chega ao seu blog, não deixa margem para dúvidas: «São tantos os dislates que se ouvem e lêem, por vezes inconscientes, que decidi esclarecer quem me procurar, para que os jornalistas (e outros intelectuais!) sejam o veículo para os media não fomentarem a iliteracia científica».
Igualmente apostados em defender a classe, sete internos do Norte do País a frequentar o segundo ano do Internato Geral mantêm, desde Novembro último, participações regulares em A CULPA É do médico (http://culpadomedico.blogspot.com). De acordo com Medman, um dos «culpados» pela existência do blog, o objectivo de «intervenção social» atravessa o projecto. Querem levar os leitores a «elaborar uma imagem diferente dos médicos, já não colocados no pedestal de antigamente, mas numa relação entre iguais». Mais uma vez, a «comunicação social populista» é alvo a abater. Não só porque prejudica a «credibilidade» da profissão, mas porque contribui para a «quebra de confiança na relação médico-doente».

Médicos «vendem» jornais

Todos os dias, as notícias sobre saúde que fazem as manchetes dos jornais e televisões são escalpelizadas com ironia e inteligência por Médico Explica (assim se apresenta o autor do blog homónimo). Aqui são detectadas e corrigidas as «calinadas», imprecisões, exageros e o sensacionalismo desmesurado. «Somos perseguidos enquanto se vender; quando as nossas notícias deixarem de ser vendáveis, ficaremos em paz», sustenta. Não se opõe à denúncia daqueles que «merecem ser perseguidos», mas custa-lhe que «os media e as revistas sociais, em geral, façam publicidade aos maiores aldrabões da Medicina, que também os há, e critiquem os que trabalham no duro».
De acordo com Medman, «para este tipo de jornalistas, qualquer erro médico é confundido com negligência». A acusação é feita colocando o acento tónico na tensão que cerca os profissionais de saúde: «Perdoam-se os erros aos políticos, aos jornalistas, aos professores, aos jogadores de futebol, aos juizes... mas não se tem a mesma medida com os médicos, ainda que estes tenham que decidir em situações extremas e com elevadas cargas de stress».

Vida privada vira pública

Sendo o blog uma espécie de diário, é inevitável que surjam dúvidas sobre a publicação de aspectos da vida íntima ou, aquilo que poderia ser entendido como mais grave — quando estamos a falar de profissionais de saúde —, a violação do sigilo profissional. Mas essa questão parece estar resolvida, pelo menos para os bloggers com quem falámos. JC explica a divisão que faz entre as duas esferas com grande clareza: «Tenho, obviamente, uma vida pessoal afastada do hospital, mas não são os elementos dessa vida que pretendo mostrar a quem lê as minhas pequenas crónicas.» O objectivo do jovem médico é apenas poder «ter um cantinho» onde possa «desabafar sobre os problemas do dia-a-dia sem comprometer o sigilo profissional nem aborrecer os habituais ouvintes».
Hipócrates (http://hipocrates.blogspot.com) tem como autores, dois estudantes da Faculdade de Ciências Médicas de Lisboa, com opinião diferente. Para ambos, «a criação de um blog acaba por ser uma forma de fuga à rotina». Por esse motivo, optam por escrever «sobre outras coisas que não o estudo», acabando por destacar aspectos privados, partilhar fotografias ou reflexões diversas sobre o dia-a-dia.
IceTeaAddict, responsável pelo Berlogue de um Virciado em Aisse Ti (http://iceteaaddict.blogspot.com), confia no pseudónimo que utiliza para proteger o «carácter privado» dos seus textos. O médico, actualmente a frequentar o Internato Geral, entende o blog como «uma espécie de diário onde cabem as vivências e as reflexões que são geradas pelo quotidiano». Com efeito, para quem está de fora, aceder às páginas de IceTeaAddict tem o mesmo efeito que espreitar pelo buraco de uma fechadura, tantas são as confidências e desabafos.
Manter o anonimato é fácil, graças à mediação proporcionada pela virtualidade. Mas a curiosidade que suscita é grande, acabando muitas vezes por residir aqui parte considerável do interesse de quem acede diariamente aos blogs.

Andreia Vieira

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De que falam os médicos bloggers

«Dirijo-me para a estação de metro, fazendo uma caminhada subterrânea. Pelo caminho encontro alguns sem-abrigo, cegos e outras pessoas que ganham a sua vida mendigando nos transportes. Não lhes dou nada... Será pela pressa que tenho? Será por uma generalizada inércia que domina o aglomerado de gente que viaja subterraneamente? Não sei... Sei que passo sem lhes dar nada... Mas de todas as vezes sinto pesar na consciência».
http://hipocrates.blogspot.com - 2005/01/05

«Afirma a irmã acompanhante da idosa doente:
- Já lhe pus as pomadas queimax e helidoro.
É a iliteracia por analfabetismo e têm desculpa, estes doentinhos, porque não são intelectuais...»
http://medicoexplicamedicinaaintelectuais.blogspot.com - 2005/01/24

«D. Amélia Fonseca - 56 anos - Carrazeda de Ansiães - Doméstica:
“Mas afinal o que é um berlogue? Isso parece obra do demo!”
Resposta: Cara Senhora, se quer que lhe diga, também não sei... Eu tenho um vizinho que tem um cão dessa raça... mas foi abatido quando deu uma mordidela no carteiro... O cão, esse, ainda anda por aí...»
http://iceteaaddict.blogspot.com - 2005/01/20

«Três dias depois, passo descontraidamente no corredor e vejo a mãe da Cláudia ao telemóvel. Inadvertidamente abrandei e ouvi um pouco da conversa: “Filha, com esta médica não te safas... Voltei a pedir-lhe por tudo, diz que não há desculpa para induzir... Até lhe disse que tinhas caído outra vez, mas nada feito. Tenho que ir falar com o Dr. X, ele é mais acessível e está de Urgência hoje. Filha, podes passar por cá agora? Diz-lhe que caíste...”. Devo ter mudado de cor, e afastei-me para não ouvir mais nada...»
http://desabafosdeummedico.blogspot.com - 2005/01/10

«Choca-me viver numa sociedade que recorra à IVG como método anticoncepcional. Eu não o faria e enquanto médico, reservo-me sempre o direito a não o fazer (excepto em casos de malformação, violação ou perigo de vida para a mãe). Contudo, penso que não tenho o direito de impedir que os outros o façam (desde que conscientemente) e que o possam fazer em condições que não ponham em risco a sua saúde, até ao momento em que considero existir vida humana - aqui passaria a ser crime... Gostaria de acreditar (embora por vezes seja difícil) que qualquer mulher que o faça, seja apenas em circunstâncias de desespero extremo e que o simples facto de o fazer seja já um fardo e um “castigo” que carregará para o resto da vida e gostaria também de pensar que para o ser “não-nascido”, é preferível não nascer do que levar uma vida miserável...»
http://culpadomedico.blogspot.com - 2005/01/25

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Internet atenua solidão

Desabafos de um Médico é visitado por cerca de 90 pessoas todos os dias, segundo as contas de JC. «Tenho uma série de “comentadores residentes”, que enriquecem o meu blog com maior frequência. Alguns são profissionais de saúde, mas são uma minoria.» Aquilo que constata é que a maior parte dos visitantes são precisamente bloggers. Tal como o próprio nome indica, Médico Explica Medicina a Intelectuais é, de facto, visitado maioritariamente por intelectuais. Quem o afirma é o seu autor, com base nos e-mails que recebe: «Colegas serão poucos, o que não quer dizer que não me leiam e quando me escrevem é para apoiar. Consultas e casos pessoais são poucos. Noto que muitas pessoas que me escrevem são pessoas com necessidade em conversar, em dialogar, são pessoas que vivem na solidão da grande cidade(...), são mais mulheres que homens, uns confessam essa solidão (...), noutras é o meu “olho clínico” que vislumbra uma angústia escondida em alguns dizeres.»

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Como baptizar um blog?

Médico Explica Medicina a Intelectuais está online desde Julho de 2003, e conserva, nos seus arquivos, exercícios de escrita bem humorados, todos dirigidos a intelectuais, pois claro. «Explicar» sempre foi o propósito do autor, por isso escolheu este verbo «em oposição a ensinar». Mesmo assim, o nome da página tem estado na origem de várias confusões e interpretações. «Tinha e tenho a percepção de que os leitores dos blogs são na sua maioria intelectuais, honestamente intelectuais mais virados para as letras e menos dados às ciências», sustenta o clínico ao mesmo tempo que reforça a garantia de que o baptismo do weblog «não foi um acto de arrogância nem presunção».
Da mesma forma, A CULPA É do médico não é um nome atribuído ao acaso. De acordo com Medman, «satirizar a ideia generalizada que a sociedade actual tem de que a culpa é sempre do médico», aparece como um dos propósitos do espaço que tem ainda a «pretensão» de servir de pano de fundo à «troca e debate de ideias entre amigos». «Se as pessoas têm dificuldade de acesso aos serviços de saúde, a culpa é dos médicos que não querem trabalhar; se as doenças das pessoas ficam piores, a culpa é do médico que foi negligente; se as pessoas são transferidas de hospital para hospital, a culpa é dos médicos que não as querem examinar». As situações em que a «culpa» é inevitavelmente imputada ao clínico, são intermináveis quando alinhadas pelo médico interno, razão mais do que suficiente para criar um espaço dedicado ao problema.

TM OUTROS SABERES de 2005.02.09

Comentários:

Os êxitos são sempre da equipa de "profissionais de saúde" ,mas a culpa do que corre mal é sempre do médico.
Assinado:Um médico (licenciado em medicina que trata doentes)  

Bom para eviter esses problemas

Comprei um sistema de captura de imagem pago para minha clínica na Lucas Solutions http://www.lucassolutions.com.br.

Não me arrependo. Tudo que é pago é melhor!

O sistema funciona perfeitamente além de gerar lucro.  

Este comentário foi removido pelo autor.  

Bom, sou estudante de medicina, às vésperas da formatura, e também acompanho todos esses dramas no dia-a-dia, e penso que há que se criar uma válvula de escape para tudo isso. Falar com os colegas é algo muito útil nesse sentido, porém, às vezes, temos a necessidade de falar sobre outras coisas, para não deixarmos que tudo isso nos sufoque. Minha linha de pesquisa é educação médica e, uma coisa que tenho observado nos profissionais da saúde, em geral, é um esquecimento de seu dever cívico e dos outros aspectos da vida. Penso que escrever é muito importante nesse aspecto, bem como é dever do médico buscar entender a sociedade onde vive e buscar cultura. Um dos motivos dos médicos de hoje serem tão pouco considerados hoje em dia é o fato de alguns serem superficiais... isso diminui a admiração.
Não conheço ninguém em minha faculdade que seja um blogger, mas tomei coragem e montei um pra mim... ainda estou temeroso quanto à exposição... mas vamos ver onde tudo isso vai dar. Muito obrigado por mostrar outros blogs de médicos, será muito bom para mim acompanhá-los.

http://mioloterapia.blogspot.com/  

O site Avalie o Doutor (http://www.avalieodoutor.com.br) com certeza colaborará na determinação do que o paciente brasileiro entende por bom profissional da medicina e odontologia.  

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