sábado, março 19, 2005

Comércio de orgãos

O post anterior fez-me lembrar este tema e esta é a minha opinião:
-Sou a favor do estado comprar órgãos não vitais (rim, lobo esq do fígado) a particulares e disponibilizar esses órgãos no SNS para os que estão à espera de transplante. O pagamento seria por um preço tabelado.
- Qualquer particular poderia comprar órgãos directamente, desde que cumprindo as formalidades legais, por um preço nunca inferior ao do estado mais um seguro de saúde para o dador. Neste caso a cirurgia tb ficava por conta do particular.
- O “dador” teria antes de se sujeitar a exames médicos para averiguar se o risco para a sua saúde é aceitável (só assim sendo possível a troca). Teria que ter mais de 18 anos e não ter distúrbios mentais. Este teria que aceitar as condições do contracto em duas ocasiões distintas espaçadas em 2 semanas.
- Todo o processo seria acompanhado por alguém que asseguraria que o dador não era pressionado para o fazer.
- Todos os fluidos corporais (sangue, células hematopoiéticas e sémen (e saliva se alguém quiser)) poderiam ser comercializados livremente desde que cumprissem as regras próprias de colheita e armazenamento dos mesmos.

Comentários:

???hum???  

o comercio livre de orgãos...ainda nem discutimos a liberalizaçao das drogas leves quanto mais dos rins!  

ui... que tema polémico que foste buscar!!! Em geral, sabes que estou de acordo contigo (lembras-te daquela discussão sobre a venda de urina e saliva, que tivemos na Covilhã???)

Acho que é importante realçar alguns aspectos...
1. órgãos não-vitais
2. "preço" mínimo tabelado
3. vigilância das "transacções" muito apertada
4. garantia de cuidados de saúde ao "dador"
5. compra de órgãos pelo SNS, disponibilizados a quem deles precisar

É certo que a nossa sociedade não está adaptada para aceitar estas propostas de "ânimo leve", mas uma coisa é certa, a "doação" de órgãos iria aumentar e muito, podendo assim ajudar muitas pessoas que hoje em dia, acabam por "morrer" em lista de espera.
Parece-me uma situação em que "todos" saem a ganhar... o dinheiro, pode ser muito útil para o "dador" e os órgãos, de certeza que são muito úteis para quem os recebe.

Há a teoria da rampa deslizante, em que isto pode facilitar o tráfico de órgãos vitais, o mercado negro, etc... mas isso já existe hoje. Talvez uma abertura, faça com que deixe de haver tanta pressão para o tráfico ilegal de órgãos... (as histórias de pessoas raptadas, que acordam sem um rim, não são tão irreais como isso).

Se nós podemos dispôr do nosso corpo como nos apetece, podemos fazer-lhe mal, mutilá-lo, ter estilos de vida que virão a ter consequências a nível de saúde, por que razão, não havemos de poder vender um órgão? Isto, levado a um ponto mais "liberal", até nos poderá permitir concluir que, se nos podemos suicidar, porque não havemos de poder vender um órgão vital? Aqui, já não concordo, mas confesso que mais por preconceito do que por argumentos lógicos e "éticos"...  

Voçês são é doidos!
Porque não liberalizamos também a venda de bebés? Ou legalizamos a escravatura tb?
Existem razões médicas para não se comprar sangue! As mesmas razões aplicam-se aos órgãos (não vitais, mas ainda assim importantes).  

Ó anónimo: caso ainda não te tenhas apercebido a maioria de nós somos médicos e: não há razões médicas para não se comprar sangue nem orgãos.
Tais possibilidades existem nalguns países.  

Porque é que não se há-de poder comprar aquilo que se pode oferecer??? A doação de sangue ou órgãos é uma realidade, a "compra" só funcionaria para aumentar o número de interessados (e directamente de beneficiados) em realizar o "negócio".

Ó anónimo... espero que nunca precises de um rim, mas se algum dia precisares, ias ver que gostavas de poder ter um rim disponível para te salvar a vida...`
E quanto à venda de bebés ou à escravatura... esquece, que não tem nada a ver com isto. Isto é um negócio entre duas partes, competentes (do ponto de vista psicológico), sem coacções e sem intervenção (ou decisão sobre a vida) de terceiros... Se me disseres que alguém tem o desejo de ser escravo... quem é que vai impedir isso? Se não, estamos aqui estamos a impedir as práticas sado-maso... :)  

Oi!! Não, não sou o das 9:54 PM, sou outra, e sou da maioria... Mas tenho que confessar que a rampa deslizante me faz muita confusão... Vejo tantas mãos a ser untadas por uma porcaria de uma consulta em tempo útil, ou por uma receitinha, que nem me atrevo a imaginar o que viria das mãos de quem precisa de um órgão para salvar a vida...Ah! E não estou a falar de médicos, apesar da maioria dos utentes os tentarem comprar com uma merdinha dumas garrafinhas ou de um bolo-rei... e o problema é que há quem ache que isso compra um médico...ou pior (há médicos que assim se deixam comprar... schuu).
E já agora, quem seria esse play-God que iria supervisionar e assegurar-se que a pessoa não estaria a ser pressionada para fazer a doação? Pressuponho que alguém absolutamente idóneo, como esses idóneos todos que nós vemos nos cargos que fazem as diferenças...
Não posso contudo deixar de me colocar na pele de alguém que se vê a morrer aos pedaços, na esperança que chegue o dia do telefonema a dizer...é hoje. E concerteza essa seria uma forma de haver muita gente a ouvir todos os dias...é hoje!! Só receio o à custa do quê...  

É claro que o comércio não impediria a doação (de graça) do orgão por motivos humanisticos que eu acho que deveria ser incentivada e que a actual legislação impede (excepto para familiares directos). Acredito que se 10% dos portugueses disponibilizassem um dos seus rins para doação se alguém compatível precisasse dele, quase não haveria insuficientes renais em Portugal. Além disso teriam quase a certeza que se algum dia o outro rim falhasse tb iriam ter muita facilidade em receber um rim.  

"Ó anónimo: caso ainda não te tenhas apercebido a maioria de nós somos médicos e: não há razões médicas para não se comprar sangue nem orgãos."

Médicos!

Vejam, por exemplo:
http://www.ncbi.nlm.nih.gov/entrez/query.fcgi?cmd=Retrieve&db=pubmed&dopt=Abstract&list_uids=15045013  

Ora aqui está o perigo de se falar do que não se conhece a fundo... Isto era para provar o quê, ó senhor homónimo?
Que "there is a greater risk of transmitting AIDS viruses (and possibly other blood transmissible diseases) through remunerated blood donors"? Tens noção que os testes aplicados ao sangue dos voluntários são os mesmos dos aplicados ao dos remunerados...
E caso conheças o período janela (o que é bom sinal) também existe para os voluntários. E caso nos estejas a tentar mostrar que há um grupo de risco seleccionado, tens noção que TODOS SOMOS PARTE DO GRUPO DE RISCO??? E se te chegar uma senhora de 60 anos cristâ católica praticante, com os melhores princípios, um único parceiro sexual (O Joaquim, que esteve no ultramar e diz ser um santo)e obviamente é o seu marido, e nunca se meteu em porcarias de picas na veia, tens noção que a maravilhosa e encantadora senhora pode estar igualmente infectada...
Vamos falar a sério de coisas sérias...  

Sim anónimo... e queres um artigo de uma revista (com um impacto bem maior) que diga exactamente o contrário??? Ele aqui vai:
http://www.ncbi.nlm.nih.gov/entrez/query.fcgi?cmd=Retrieve&db=pubmed&dopt=Abstract&list_uids=8174821

Para os mais preguiçosos: Given the existence of a comprehensive approach which encompasses donor safety, plasma testing, and effective manufacturing procedures, safe and efficacious plasma derivatives can be produced from plasma drawn from remunerated donors and can be made available in sufficient quantity to meet medical needs in an economic manner.

As dificuldades técnicas, quando surgem, resolvem-se por meios técnicos não por "moralismos"...  

Pois claro que pode ser feito, com razoável segurança, mas eu não li em lado nenhum o contrário do que afirmei. E eu estava a falar de sangue e não de plasma derivatives.
Quanto a essa história de não haver grupos de risco:
"donor safety" é um conceito que vem no tal artigo de uma revista com impacto maior.
Já agora, lembrem-se que existem muito mais perigos infecciosos do que o HIV.
Além disso esta nem sequer é o maior problema que vejo na vossa proposta. Não devo ser o único, pois que eu saiba em nenhum lugar civilizado do mundo se compram órgãos legalmente.
PS: nunca assinei como anónimo, apenas escolho a opção mais fácil de assinar (não o faço), em vez de ter um nick.  

Esta discussão está interessante por um lado já que o anónimo tentou dar uma justificação científica daquilo que disse e está muito fraca porque não estamos a discutir a verdadeira questão, mas um assunto perfeitamente secundário e desproporcionado. Respondendo ao anónimo (desculpem ser uma resposta extensa mas tem que ser):
1º Posso-te dizer que o governo Iraniano (talvez não subjugado por pseudo imperativos morais) compra orgãos aos seus habitantes para dar aos que precisam, num sistema regulado. Neste país não há registro de tráfico (muito ao contrário da Índia, Brasil e China onde o comércio é ilegal mas os europeus e americanos compram órgãos de uma forma que explora a miséria extrema comprando até orgãos vitais).
2º Na minha opinião o principal motivo por que não se legaliza a venda de orgãos nos outros países (reparas-te que em relação ao sangue o mesmo já não se passa): Moral judaico-cristã que diz que referencia o corpo como algo sagrado. Além disso é um assunto sem dúvida polémico e a falta de orgãos é um problema em termos históricos muito recente sendo que a maioria dos países só faz transplantes por rotina há poucos anos.
3ºHá ou não razões médicas para não se comprar sangue e órgãos: Na Nigéria as pessoas que doam sangue têm maior probabilidade de estarem infectadas pelo VIH. Muito bem. E embora não prove nada para Portugal aceito que o mesmo se passe em Portugal (com diferenças muitíssimo menores já que a prevalência do HIV é muito menor e não está tão “concentrado” nos estratos sócio-económicos baixos (os que vendem o sangue) como imagino que esteja na Nigéria). Sem estudos que o provem nos dadores de sangue parece-me que em Portugal o risco de HIV tb é maior nos homens, nos jovens adultos, nos habitantes de Lisboa e Porto, … Há estudos noutros países que provam que nos dadores de sangue é maior no homens, nos casados(?), nos com mais de 25 anos, nos não estudantes, nos estratos sócio-económicos mais baixos, nos habitantes de determinadas zonas (não ponho referências para não alongar). Será que isso prova que há razões médicas para os elementos destes grupos não darem sangue? Parece-me que não. Além disso o sangue comprado não tem que necessariamente ser para transfusões. Pode ser para investigação ou outras aplicações comerciais. Tb consideras que haverá motivos médicos para impedir a venda de sangue para estes fins?
Pondo isto em contexto: O risco de infecção pelo VIH nos países desenvolvidos é cerca de 1 por 2 milhões de transfusões. Mesmo que duplique o que é que isso interessa a quem precisa do sangue (já para não falar em quem precisa de órgãos)? (o mesmo se passa para as outras infecções transmissíveis pelo sangue embora tenham frequências de transmissão diferentes). Na Nigéria e em muitos outros países há falta de sangue e por isso eles compram. Achas que deviam deixar de comprar e dizer às pessoas que precisam que não há? Achas que há motivos médicos para isso? Em Portugal só não há falta porque embora o estado não possa comprar aos habitantes, pode comprar (e compra todos os anos gastando muito mais dinheiro) a outros estados ou empresas estrangeiras independentemente da forma como eles o arranjaram.
4º Tb nunca esperei que fosse o risco de contaminação dos orgãos o grande argumento contra a sua venda. Gostava é que me dissesses os outros argumentos para os podermos debater (considera-te desafiado).
5º Podes escrever na própria mensagem o teu nome que não dá trabalho nenhum. Mas se quiseres continuar como anónimo por mim tudo bem. Responde é ao ponto 4.  

anónimo | s. m. | adj.
do Lat. anonymu < Gr. anónymos, sem nome
s. m., aquele que não assina o que escreve;
adj., sem nome de autor, que não é assinado;


Dicionário Online Priberam...

Ó anónimo... não te passes. Se não deixas nome, só te podemos tratar por anónimo. Não precisamos de saber quem és, da mesma forma que tu não precisas de saber quem somos. Mas se não temos como te chamar, és anónimo

Respondendo às tuas questões:
1. Donde pensas que vêm os plasma derivatives?
2. Não leste o contrário do quê? Não leste que não existem razões médicas para "vender" órgãos? Claro que não... por 3 motivos: primeiro a questão não faz sentido e não é clara; segundo é mais difícil provar que não existe alguma coisa do que a existência de qualquer coisa... (uma questão de sensibilidade e especificidade dos ensaios clínicos); terceiro o viés de publicação nas revistas científicas selecciona artigos que comprovam associações, não os que negam...
3. Estamo-nos a desviar do assunto porque a "venda" de sangue é permitida em muitos países "civilizados". Aliás, só assim é que se suprimem as faltas de sangue a nível mundial... E já agora, tu é que falaste no risco de transmissão do HIV.
4. Concordo plenamento com TUDO o que disse o Francisco. É preferível infectar mais um indivíduo em cada milhão de transfusões (ou até um em cada 10 transplantes efectuados, se fosse o caso), mas ter a certeza que as pessoas que precisam do sangue e dos órgãos para viver, tinham acesso a eles.
5. Actualmente o conceito de "grupo de risco" não existe. Existem "comportamentos de risco", o que é bem diferente!
6. Não duvides que a breve prazo a comercialização de órgãos não vitais (com limitações obviamente) vai ser uma realidade nos países desenvolvidos.
7. No Reino Unido, por exemplo, existe já um movimento que está a pedir a liberalização da venda de órgãos não vitais, como única forma de suprir a procura.
8. A única justificação que é dada pelos especialistas em bioética para proibir o comércio de órgãos é a valorização filosófica e religiosa do corpo enquanto património da humanidade e da hiper-valorização do corpo humano. Não querem que partes do corpo humano sejam tratadas como "mercadoria" apenas e só porque isso é desprestigiante para o homem. Para mim desprestigiante é deixar alguém morrer, porque continuamos agarrados a filosofias do século XIX, e temos tecnologia do século XXI...
9. Considera as nossas respostas como um desafio para participares e não como um "ataque" pessoal. Se nós não quiséssemos discutir estes temas, não escrevíamos num blog público...

cumprimentos e até breve!  
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