domingo, março 06, 2005

Outra Beatriz

O caso contado pelo medman fez-me lembrar uma outra Beatriz que conheci quando passei na pediatria. Tinha cerca de 15 meses e tinha nascido com uma delecção parcial do cromossoma 15, coartação da aorta (a aorta era demasiado estreita), comunicação intra-ventricular (havia um "buraco" entre os dois ventriculos) já corrigida e outras malformações minor. Quando a conheci, já tinha tido sépsis (infecção generalizada) por fungos (algo muito raro e grave) e bronquiolites (infecções nos bronquíolos) de repetição.

A 1ª vez que a vi foi na urgência. Olhava-se para ela e via-se pelo fácies (aspecto da cara) que ela era especial. Era um pouco semelhante às crianças com trissomia 21 (tb conhecida como mongolismo) mas de certa forma diferente. Além disso vinha muito pálida. Os pulmões pareciam uma festa de sibilos e roncos, no RX não havia nenhuma área do pulmão com características normais. Eu sinceramente receei por ela e fiquei desamparado já que me apercebi rapidamente que os meus conhecimentos eram manifestamente insuficientes para a situação. Foi a “minha” primeira criança muito grave. Apesar disso e com orientação dos pediatras da equipa continuei a ser eu a “cuidar” dela. Afinal era só uma bronquiolite (que no caso dela se manifestava de forma muito mais grave do que é habitual). Ela foi internada na minha equipa e tive oportunidade de conhecer melhor a sua situação. Desde que a Beatriz nasceu que a mãe deixou de trabalhar para cuidar dela. Durante os primeiros 10 meses de vida a Beatriz passou mais tempo no hospital que em casa. Quando estava em casa precisava de cuidados de saúde especializados regulares (nalguns dos quais a mãe se tornou perita). Ultimamente estava a ser apoiada várias vezes por semana por enfermeiras, especialistas da locomoção e da fala para além das consultas regulares com o pediatra. Nunca vi o pai, nunca perguntei.

O internamento foi prolongado (quase 1 mês) mas correu bem e ela teve alta com muito melhor aspecto e com muito mais vivacidade. Não parecia a mesma. Durante todo esse tempo a mãe ficou com ela, dormia num cadeirão ao lado da sua cama e quando não estava a ajudar o pessoal de saúde a cuidar dela, estava a tentar mantê-la ocupada e estimula-la com jogos e brincadeiras. Nunca a vi desanimar. A Beatriz retribuía: com sorrisos e abraços.

Voltei a ver a mãe passado cerca de dos meses no refeitório do hospital e falei com ela: a Beatriz tinha tido outra crise de bronquiolite. Passados uns dias fui visitá-la. Tinha crescido, estava mais alta, mais autónoma. Infelizmente, as diversas limitações de estar internada faziam-na sofrer mais que no 1º internamento. Brinquei um pouco com ela e conversei um pouco com a mãe. Passados uns dias teve alta e nunca mais a vi.

Espero que tudo te corra bem Beatriz e que consigas ser feliz.


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