segunda-feira, dezembro 26, 2005

Surpresa de Natal

Estava eu a fazer 24h de SU na noite da consuada e por volta das 22h, tendo acabado de dar alta a mais uma das "cai há 3 dias e agora está me a doer um pouco as costelas", volto-me para a próxima ficha. Tinha sido triada como amarela e estava há espera há 20 min. Era um doente transferido de outro hospital cuja nota de transferência referia que tinha uns antecedentes quaisquer (nada de relevante), tinha estado internado por patologia ortopédica (já não me lembro bem o que era), que durante o internamento tinha feito um AVC, tinha tido alta e voltava por edema dos membros inferiores e que o doente era transferido porque eles não tinham ninguém da Cirurgia Vascular e dizia "Análises, ECG e TAC toraco-abdominal em anexo" (este sem relatório). Fui ver o doente e era um senhor com 75 anos,que estava acompanhado pelo filho (tendo sido ele que o tinha trazido do outro hospital) e referia dor moderada abdominal e na região dorsal e edema dos membros inferiores, não sabendo explicar muito bem porque tinha sido transferido.Tinha tensões tipo 100/60, ACP sem alterações significativas, um abdómen muito dilatado, tenso não se conseguindo palpar nada, exame físico das costas não revelava nada de especial e tinha realmente algum edema dos MI sem ser nada de especial. Vou ver as análises e tinha uma anemia normo/normo com Hb de 9.5, ligeirissíma leucocitose, PCR de vinte e poucos e nada de especial no resto dos exames "chapa". Olhei para o ECG e não vi nenhuma alteração e depois olhei para o TAC: a primeira coisa que vi foi um derrame ligeiro à esq e depois no abdómen tinha o que me pareceu colecções de liquído livre/abcessos. Ainda ia a meio das imagens quando passa o colega da Radiologia no corredor e como ele é impecável chamei-o para me vir dar uma ajuda. Ele olhou para as imagens 1 minuto, começou a ficar com uma cara preocupada e depois disse: "Mas... esta aorta está rota!". Corremos para falar com os colegas da Vascular que afinal já tinham sido contactados por causa desse doente e estavam à espera dele. Ele foi logo operado e quando sai da urgência estava bem.
Como é possível que um doente com ruptura da aorta abdominal: seja transportado entre hospitais em carro próprio, na nota de transferência não fazer qualquer referência à patologia major do doente, não dizer nada ao doente; Assim obrigaram-no a passar pela triagem, estar à espera da sua vez de ser atendido e demorando-me a mim mais 10 minutos até me aperceber da patologia do doente.

Comentários:

É tão mau como deixar um doente assinar um termo de responsabilidade e não o conseguir convenser a deixar-se ser operado a um carcinoma gástrico. Tudo isto porque esteve a ser estudado (sem ser alimentado) durante 2 semanas. Durante esse período também não foi devidamente informado sobre a sua patologia.  

Estamos em Portugal! Que é que se pode fazer? Neste país é tudo assim...  

Jasus!!!

Abraço da Zona Franca  

Final feliz, esperemos. E os que não têm a sorte de o "apanhar" a si?  

Louvável pois a sua atitude ó Francisco. Mas é claro que não fez mais do que a sua obrigação. Cumpriu o seu dever.

Da leitura do post fica-se com a impressão que houve algum tipo de má prática. Pergunto eu agora: para além de escrever no blog fez algum tipo de participação oficial? Contactou o Hospital de Origem a inteirar-se do sucedido? O doente terá mesmo sido aconselhado (obrigado) a viajar na viatura do filho ou terá sido esta a sua (ou do filho) opção? Comunicou ao Chefe de Equipa? Ou à Direcção do SU? ou à Ordem dos Médicos?

Pois...  

Tens razão Avicena. Dessas todas só falei com o chefe de equipa e foi mais um desabafo que propriamente uma queixa formal.  
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