quinta-feira, dezembro 09, 2004

Chiuuuu... É segredo!

Andávamos nós todos satisfeitos, a pensar que o sigilo médico era um bem precioso, quando vem um qualquer relatório pôr tudo isso em causa. A notícia completa, podem lê-la no Público, segundo o qual:
Segundo o relatório - enviado já ao Presidente da República, ao Parlamento e à tutela - a privacidade dos doentes é violada pela forma como circulam e são arquivados os processos clínicos, muitos ainda em formato de papel, o que facilita o acesso a pessoas não autorizadas ou a sua circulação para o exterior das unidades. A forma como circulam nos hospitais os resultados das análises clínicas dos utentes e a ausência de regras de acesso ao arquivo único dos hospitais são também propícias a violações da privacidade.
Tão ou mais grave é a utilização generalizada, pelos hospitais, dos processos clínicos para investigação científica, sem o devido consentimento dos doentes e sem o controlo da CNPD.

Que estranho!!! Bastava terem perguntado a qualquer médico de qualquer hospital português, para terem chegado a esta conclusão. E sempre se poupava uns trocados gastos no estudo...
Enquanto não se investir a sério, na informatização dos hospitais e no processo clínico electrónico integrado, além de se continuar a gastar dinheiro desnecessário em consultas e exames redundantes, duplicados ou inúteis, não se conseguirá proteger a privacidade dos "nossos" doentes. Quanto à necessidade prática de um processo clínico electrónico unificado, lá iremos dentro de alguns dias. Quanto à privacidade, apenas alguns exemplos:
  • O doente precisa de um Rx. O médico preenche a requisição em papel. Todos os funcionários por quem passa o papel, ficam a saber que o doente precisa de um Rx e qual a situação clínica que motiva o pedido. Tal como os funcionários, qualquer pessoa que passe no corredor e veja o papel fica a saber o mesmo.
  • O doente vai ao TAC. O processo clínico acompanha o doente. Repete-se a história anterior, mas agora com conhecimento completo do processo clínico do doente.

É giro isto do sigilo médico... Voltaremos a isto mais tarde...
Quanto à utilização dos dados do doente para investigação sem o seu consentimento, viola um dos principios básicos da investigação científica em seres humanos: o da participação voluntária. Pode não prejudicar directamente ninguém, mas fica mal!!! As regras existem para ser cumpridas por todos. Vá lá Srs. Drs... Não façam erros destes.


Comentários:

custo muito a crer que a informatização solucione um problema dessa magnitude. é mais fácil substituir os médicos, enfermeiros e técnicos, colocando em seu lugar outros com ética.  

aceitam-se propostas RinoGas, mas acho que te passou ao lado a essência da mensagem... volta sempre  

Ora bem, a questão do sigilo.
Nesta questão do sigilo, entra uma espécie que dá pelo nome de "auxiliar de acção médica". Pois bem. Nos hospitais menos modernos, leia-se: aqueles que não têm sistemas informáticos do século XXI, esta espécie floresce. São uns seres que andam aos pares, alimentam-se na maior parte das vezes da cusquice e muitas vezes deixam processos clínicos confidenciais espalhados pelo chão dos hospitais.... Felizmente, com as novas gerações parece estar a haver uma selecção natural que faz com que as pessoas que desempenham estas funções, felizmente cada vez mais com conhecimentos adequados às mesmas, sejam responsáveis.
Mas bom, para os menos informados....... A culpa é do médico  

Sem qualquer sombra de dúvida que a culpa é do médico. É em nós que é depositada a confiança e a responsabilidade do sigilo. Somos nós que fazemos um juramento de Hipócrates, somos nós (ou devíamos ser) que criamos os protocolos de quem vai buscar processos e em que condições. Fechados ou abertos, informatizados ou em papel. Por auxiliares, administrativos, enfermeiros ou secretários de associações.
'Atacam' os auxiliares de acção médica, mas mesmo com informatização, os administrativos dos serviços continuam a ter acesso a informação previligiada. E bem. É preciso é saber usá-la (ou não).

Um pequeno comentário acerca do uso de dados em investigação. Não sejamos mais papistas que o papa. Uso de informações de doentes para estatísticas não traz mal nenhum. Senão até para pormos o número de patologias vistas no nosso curriculum precisávamos de autorização. Além do mais, as investigações científicas em curso costumam estar sobre o controlo das Comissões de Ética dos Hospitais.  

Comentários:
- concordo que se os pedidos de requesições de exame e os seus resultados (não esqueçamos que pelo menos no meu serviço os resultados dos exames com os nomes dos doentes são colocados em cima de uma mesa qualquer do refeitório dos doente que é onde os médicos da minha secção têm de trabalhar)fossem transmitidos por programas informáticos seria muito melhor em termos de privacidade (existem mecanismos técnicos para nem o programador nem a técnica saberem o nome do doente que vai fazer o exame)
- Nenhum sistema informático previne que um auxiliar de acção médica veja entrar um familiar na consulta da doença X. É por isso que o sigilo médico não é só para os médicos (aqueles que fazem o juramento de Hipocrates). É para todo o pessoal de saúde e isto está na lei.
- na minha opinião os auxiliares de acção médica tem tanto cuidado com o sigilo médico como os outros grupos do sector (alguma). Deveriam ter todos mais.
- acho importante que se façam estudos e que não se perguntem opiniões. A situação não é igual em todo o lado (no HSJ há regras para se ter acesso a um processo do arquivo central)e é preciso saber em cada sitios o que é que está a falhar e o que se pode corrigir e geralmente não há ninguém que conheça todas as falhas num establecimento de saúde
- sejamos claros: faz-se muita "pequena" investigação em Portugal sem o acordo dos comités de ética. Está mal e as pessoas que a fazem deveriam ser responsabilizadas. Quanto a utilizar informação sem o conhecimento do próprio colocam-se aqui vários aspectos complexos que devem ser avaliados caso a caso por uma comissão de ética( a impossibilidade prática de contactar todas as pessoas numa "pequena" investigação; eu preferia que os meus dados clínicos fossem usados numa investigaçaõ séria e em que os dados sejam confidenciais (quase sempre)do que me andassem a chatear se dou aprovação, o usar o doente (uma pessoa humana) para fins investigacionais sem preocupação por isso.  
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