quarta-feira, março 30, 2005

A vida anda às voltas

Começo esta mensagem com a recomendação da leitura deste texto, do Prof. Júlio Machado Vaz. Aqui fica um "cheirinho":

A minha vida pertence-me. Tentarei vivê-la de cabeça levantada e costas direitas até ao último instante, mesmo que para tal deva antecipá-lo. Já o disse e escrevi muitas vezes: tenho horror à hipótese de sobreviver a mim próprio.




Julho 2004 - Parque do Prater - Viena - Áustria Posted by Hello

Um comentário recente do Vaticano, refere que qualquer doente, independentemente da sua vontade, deve ser sujeito a hidratação e nutrição parentéricas para manutenção da vida. Caricato, no mínimo, vir o próprio Papa a necessitar de tal tipo de suporte. A contrapôr a esta vontade de viver, surge-nos a alegada vontade de Terri Schiavo em não ser mantida viva artificialmente.
Por cá, a Comissão Nacional de Ética para as Ciências da Vida, recomenda, que caso seja essa a vontade expressa do doente, a alimentação e hidratação artificiais possam ser suspensas a um doente em estado vegetativo persistente, mesmo que tal venha a implicar a sua morte.

Recentemente disse aqui qual a minha opinião acerca da manutenção artificial e obstinada da vida, através de cuidados médicos. Basicamente, aceito a vontade do doente. Da mesma forma que o doente tem autonomia (e é este um dos 4 princípios básicos da bioética) para escolher qual o melhor tratamento para si, aceito que o doente considere que o melhor para si é poder morrer com dignidade e não ser um mero apêndice da tecnologia da Medicina, à cabeceira do qual se tomam decisões sem o seu consentimento.

Se no caso do Papa João Paulo II não se discute a necessidade de colocar uma sonda nasogástrica para alimentação entérica, porque é essa a sua vontade, já no caso de Terri Schiavo, apenas o mais atroz fundamentalismo religioso quer obrigar a prolongar uma vida artificialmente. Já muito se disse sobre este caso (curiosamente muito mais do que sobre o parecer da Comissão Nacional de Ética para as Ciências da Vida...). Que estaria em morte cerebral, que não estaria. Que teria expresso a sua vontade, que não teria. Que deveria ser alimentada ou não. Que (pasme-se) uma vez que os pais queriam tomar conta dela, deveria ser artificalmente mantida viva... Quanto à morte cerbral, é bom de ver que não é o caso. Respira, logo o tronco cerebral está activo. Estará em estado vegetativo persistente? Ao que parece sim, como resultado de uma hipertensão intrcraneana de causa não muito "esclarecida". Alegadamente, terá expresso a sua vontade em, caso se deparasse numa situação destas, não ser mantida viva artificialmente. A confirmar-se tudo isto... caso encerrado! A vontade dos pais de "cuidar da sua filha", não pode ser respeitada, porque acima de tudo a vida e o corpo são bens pessoais e intransmissíveis.
A manutenção artificial da vida, em doentes que afirmam o contário só é justificável em filosofias que consideram a vida e o corpo humano como empréstimo divino e não como uma existência autónoma em si mesma. Esta mesma teoria, reduzida ao absurdo, implica que nunca poderemos tomar nenhuma atitude contrária à saúde do nosso corpo (porque ele não nos pertence), logo, deverá ser proibido fumar, comer gorduras e ter uma vida sedentária.
E não se pense que a alimentação por gastrostomia (como no caso Schiavo) não é uma manutenção artifical da vida. Não fosse a tecnologia da medicina e há muitos anos, teria já sobrevindo a inexorabilidade da morte, num corpo, que apenas consegue manter autonomamente a respiração, os batimentos cardíacos e o equilíbrio homeostático. Reforço... num corpo, porque apenas na forma se assemelha a uma pessoa!

À falta de engenho e arte para fazer melhor, termino uma vez mais com as palavras do Professor: "...tenho horror à hipótese de sobreviver a mim próprio."

Comentários:

Não discuto eutanásias, nem vontades expressas dos humanos. Não consigo desempatar os pratos da balança.
Não posso DE FORMA ALGUMA é concordar com o fim da vida por corte de alimentação e de água.
Escolham outro método, este, mesmo que o corpo não sofra, é indigno do século em que vivemos. Lamento discordar dos conselhos de ética, mas tenho (para além da deles) a minha própria ética, que foi criada ao longo dos anos e começou no berço. Não faria isso a um cão vadio. Aprendi em pequenino que comida e água nunca se nega a ninguém, assim como aprendi a ser carinhoso e humano com os enfermos. O fim da vida deve ser digno, e a dignidade está na forma, que vai para além do sofrimento do corpo ou da mente. Gostava de saber, em termos penais, se a gravidade de matar com um tiro, ou por falta de alimentos e água, têm a mesma pena. E porque é que se fôr à fome e sede tem uma pena maior?  

tss tss medman... nota 0 (zero) "... a confirmar-se isso caso encerrado". Pois, neste caso não houve nada de confirmado, houve apenas um marido que "disse que ela teria dito..." E optou-se por suspender uma necessidade básica de vida - a alimentação - fornecida por gastrostomia percutânea, que é um procedimento banal, e não suspender nehum suorte avnçado de vida. Em minha opinião, entrou-se num caminho mt perigoso: matar uma pessoa baseado numa presunção de vontade própria... abre caminho a quase tudo!
E aconselho-te a ler qq coisa sobre a actividade cerebral de doentes em estado vegetativo prolongado, que era o caso da Schiavo.  

pois, eu digo que sou a favor da eutanasia!

este caso da Terri Schiavo, assumiu contornos estranhos! Deixar de alimentar a mulher (ainda que pelos vistos ela não sentisse)é ideia que não me agrada! mas não estou contra a decisão do marido...o que era aquela mulher desde ha 15 anos?  

Estou de acordo com o jocapoga! Mais valia um tiro nos cornos!!!!!!  

tanto radicalismo, um sou a favor da eutanasia , mas , muitas vezes o problema reside no disse que disse, que tal deixarem um documento legal , feito de consciencia , para se houver um problema , mas de facto nao quero morrer de fome e sede , escolho outra , Jocapoga estou consigo ... antes um tiro ...  

Compreendo o jocapoga já que fui criado no mesmo contexto, mas quando penso nisso chego à conclusão que deixar de alimentar por gastrostomia é semelhante a deixar de investir em atitudes invasivas para prolongar artificialmente a vida de um doente. Não é o processo que leva à morte que está em causa. É não se fazer nada que provoque a morte, mas deixar a doença seguir o seu curso normal.
Quanto ao comentário do gasel de que a vontade dela não foi confirmada, eu não estou muito informado sobre esse assunto mas julgo que o caso correu todas as instâncias de tribunais e eles chegaram à conclusão que era essa a sua vontade.
Eu por mim concordo com Júlio: não quero que o meu corpo continue biologicamente vivo quando "eu" com tudo o que me torna único e especial já não existo.  

jocapoga: acho indigno é prolongarmos a "sobrevivência" de um corpo que há muito deixou de viver. O grupo de médicos que a segue, há muito que deixou claro que ela estava inconsciente, sem actividade no EEG e sem qualquer esperança de qualquer recuperação.
Se quanto à forma, concordo que a morte por falta de água não é muito digna, no conteúdo concordo com o Francisco, porque isso não é mais do que deixar seguir o curso natural da doença. Qual a diferença de "dignidade" na morte daquele corpo, sendo ela agora por falta de "alimento" ou daqui a uns anos por "exaustão".

Gasel - presumo que nós que estamos de fora, não sejamos mais iluminados do que os médicos, juízes e advogados que analisam este caso há quase 10 anos. Se todos os tribunais aceitaram que seria esta a sua vontade, quem somos nós (que não conhecemos o caso) para dizer que isso é mentira? Temos que aceitar que mais importante do que o tempo de sobrevida de um corpo é o tempo e a qualidade de vida da pessoa como um todo. O tempo da medicina paternalista já lá vai... actualmente os médicos são apenas uma parte da equação e o tempo de fazer de "deus" e decidir pelo doente que ainda não seria esta a hora da sua morte também já lá vai.
A suspensão da alimentação por gastrostomia é a suspensão de um suporte avançado de vida... o suporte avançado de vida não é só o ventilador e as aminas. Se o procedimento é banal e de simples execução isso deve-se ao desenvolvimento da Medicina.
Quanto à actividade cerebral em doentes em EVP, que queres que eu descubra? Que eles podem ter actividade cerebral? Podem, mas em nenhum caso após os primeiros meses se verificou recuperação da consciência. Que não há nenhum caso descrito em que haja actividade cerebral capaz de estabelecer ligações associativas e assim ter um mínimo de consciência? Que as conexões entre córtex distintos estão perdidas? Ou que os centros biológicos básicos estão desligados da actividade cortical? Que por vezes sentem a dor, mas não a percebem?

Já agora, não estaríamos aqui hoje a falar deste caso, se há uns anos, quando a Terri Schiavo teve uma septicemia, tivesse sido respeitada a sua vontade e não tivesse sido tratada. Talvez se isso tivesse logo sido feito, hoje não discutíamos a "falta de dignidade" de morrer à fome.
Para mim, falta de dignidade é poderem fazer com o corpo que nos sobrevive, aquilo que nós não gostaríamos que fosse feito.

Já agora, também te aconselho a ler os artigos do New England acerca deste caso... Ainda não foram publicados, mas já os encontras na Medline e no NEJM online.  

Ora bem...
Não conheço o caso a fundo, e até posso estar enganado, mas julgo que outros tribunais já tiveram decisões opostas no passado. E que até algins juízes mudaram o seu “sentido” de voto. E se eu não sou iluminado, também o não são os juizes que tomaram esta decisão. E eles, podem estar errados. E foram eles que fizeram o papel de Deus ao decidir a morte da Terri.

Quanto à actividade cerebral. No fundo é que tu transmites: sabemos muito pouco. É claro que eu sei que estes doentes “nunca”recuperam a consciência (poderemos falar de consciência?) mas uma coisa podes admitir, é alguma forma de vida: existem variações da actividade cerebral, existe ritmo sono-vigilia, etc, Quem somos nós para decidir que esta forma de vida não presta? Um autista profundo não presta? Se deixar de deglutir, não o alimentas?
E a PEG é exactamente o mesmo que uma SNG. É uma forma de alimentar pessoas que não deglutem, como milhares de velhinhos pós-AVC. Se achas que isso é suporte avançado de vida, ok!

E obrigado pela dica sobre os artigos :)  

Já agora, vai aos dias que voam e lê o último post do ABS. Está mt bom.  

Concordo consigo Medman. Abatam-me por favor que eu renego a vida assim. É preciso deixar papel escrito Gasel, para não se ter nota zero por haver quem concorde com o não prolongamento? Então eu deixarei, que já me habituei a burocracias "caseiras"  

Gasel: já fui e já li... e também o "resto" da discussão.

E afinal, parece que estamos todos de acordo! A Terri estava a viver uma não-vida e foi tomada a decisão mais sensata...  

Para finalizar:
Revendo e ponderando tudo, não dou nota 0 ao medman, dou um 10... ou até um 13! :)
E só porque não é nada tão simples como ele parece fazer crer ao dizer "A confirmar-se tudo isto... caso encerrado!" Este caso levanta problemas complexos quer no campo legal, quer no campo médico: Legais pois o próprio caso o demonstra, ao levar este tempo todo até ter a decisão "definitiva". Médicos, como estão bem patentes no documento da Comissão para a ética portuguesa: o EVP levanta questões éticas e cientificas para as quais ainda não temos uma resposta adequada.
E... talvez, sim só talvez, tenha sido tomada a decisão mais sensata!  

que generoso...é sempre um incentivo alguém saber que é um bom pequeno...  

Ora, nós na medicina é q estamos mal habituados!  
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terça-feira, março 29, 2005

A verdade sobre os rodeios

Vão a este site e vejam porque é que os animais nos rodeos estão aos "pinotes". Quem costuma comprar peles aproveite e veja o vídeo da Fátima Lopes.

Comentários:

Bhag!!! detesto , mas se querem posso enviar um filme sobre os Visons e Chinchilas, mas aviso que ficam com uma neura e enorme e o estomago ás voltas !!!  
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domingo, março 27, 2005

Ministério da Agricultura

Descobri este fim de semana no Expresso (desculpem mas não consigo pôr link) que o Ministério da Agricultura, do Desenvolvimento Rural e das Pescas tem um funcionário a trabalhar na área da Agricultura por cada 4 agricultores profissionais. Quando confrontado com tal racio o Secretário de Estado reconhece que o número de funcionários é elevado mas que não está prevista qualquer redução porque: «Um dos combates do Governo é o da redução do desemprego, por isso não queremos nem podemos contribuir para o seu aumento».

Espero que não seja desta forma artifical que se vai diminuir o desemprego. Obrigando o Estado a criar/manter postos de trabalho desnecessários, o país vai ao fundo se eles cumprirem o objectivo dos 150 mil.

Comentários:

Q se trave o desemprego é uma coisa...Agora onde é q se vai o dinheiro para pagar estas despesas todas?
Abraço da Zona Franca  

benvindo ao socialismo...  
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sábado, março 26, 2005

Novos mundos ao mundo


A acção do Homem, na modelação do ambiente já se estendeu a outros planetas. Na imagem, podemos ver uma perfuração e anéis de raspagem, para análises científicas efectuados pela sonda Spirit. Fonte:Time

Desde sempre que o Homem foi movido pela curiosidade: de se conhecer a si e aos outros (e aqui nasceu a Medicina), de conhecer a sua terra, os seus animais e o seu Mundo. Depois, quis conhecer outros povos e outras terras. Invadiu, lutou, dizimou e conquistou. Pelo caminho foram ficando outras sociedades e outros ambientes. Extinguiu espécies. Adaptou o mundo à sua vontade. Domesticou animais e plantas. Criou transportes de longa distância; "amansou" os mares, conheceu a Terra e depois já farto, criou transportes interplanetários. Foi à lua, mandou "sondas" a Marte e a Saturno. E também lá começou a deixar a marca da sua passagem...

A Lei de Lavoisier, diz que "na Natureza nada se cria, nada se destrói, tudo se transforma" e os últimos 150.000 anos (mais coisa menos coisa), têm demonstrado a capacidade do Homo sapiens de transformar a Natureza que o rodeia... e a si próprio!


Comentários:

Concordo plenamente , é que de facto , pouco se tem evoluido... especialmente no que diz respeito a respeitar a mae natureza que cada vez nos prega mais partidas ...  

eu acho que o homem tem evoluido! nem sempre a seu favor, mas antes de interesses economicos! mas se formos a ver quem é que não fica boqui aberto por o homem ter posto os pes na lua, por estar a visitar marte! isso é mau? não sei, acho que não, a conquista do espaço não será assim tão má desde que o homem tenha a capacidade de se avaliar perante aquilo que lhe é proporcionado...sei lá!
as vezes desconfio do ser humano...  
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Uma história da Páscoa...

Li aqui uma visão diferente da história da Páscoa... historicamente mais plausível, integrando a figura de Yeshua ben Yosef (Jesus filho de José) no seu contexto de Judeu e as evoluções da "Igreja Católica Romana" para se aproximar do centro do poder romano e afastar do judaísmo da Galileia.

Obrigado JMP pela dica...

Comentários:

É completamente diferente. Esta historicamente tb me parece mais plausivel mas não me quero meter nessas discussões.
A Igreja concorda que os evanjelhos foram escritos 100 anos depois da morte de Jesus? É que nesse caso já não teriam sido escritos pelos respectivos apóstolos.  
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quarta-feira, março 23, 2005

Ciganos

Todos estamos habituados a lidar com ciganos, nas mais variadas situações: os vendedores na feira, os pedintes nos semáforos, os vendedores de pensos à porta do hospital, as famílias que se deslocam em peso quando algum está internado e muitas vezes a incapacidade que demonstram em se "adaptarem" às leis da sociedade.

Se é verdade que não devem ser discriminados por serem uma "etnia" diferente, a verdade é que também não devem ter direitos que não são dados ao comum dos cidadãos devido ao "medo" que se tem dos ciganos... Ainda me lembro de uma frase que se dizia às crianças: Tens de comer a sopa toda, senão vem o cigano e leva-te! Este preconceito, está infelizmente muito enraízado na cultura portuguesa (verdade seja dita que os próprios, também contribuem alguma coisa para isto - e pronto, aqui estou também a demonstrar o preconceito!). Mas, não podemos, devido ao medo, permitir que os "ciganos" não cumpram as leis que todos temos que cumprir (pagar impostos, por exemplo) e que tenham mais regalias do que a restante sociedade (invadir autenticamente as urgências hospitalares, muitas vezes armados e na complacência da polícia).

A experiência que tenho destas situações (pouca), demonstra que, em geral são pessoas educadas e respeitadoras, desde que "achem" que estão a ser bem-tratados. Se o tempo de espera "aceitável" foi ultrapassado ou estão há muito tempo "à espera de exames", começa a surgir um burburinho... uma confusão crescente que muitas vezes termina em confrontos "físicos" (ainda recentemente um colega foi agredido à saída do SU, porque não observou o "cigano" que estava à espera antes de acabar o seu turno, perante o olhar impávido das forças de segurança). E enfim, o medo acaba por dominar a sociedade e numa sociedade que pensávamos democrática e evoluída ainda existem alguns para quem as leis não são para cumprir.

Mas passando à estória que queria contar (para demonstrar que os "ciganos" não são todos iguais, e tal como a "sociedade" se divide em pessoas ditas normais e em marginais, também os ciganos se podem dividir da mesma forma; o grande problema parece-me ser que "eles" defendem a família acima de tudo e assim, uma grande etnia acaba por ser conotada com os actos cobardes de uma mão-cheia de marginais a quem acabam por dar uma palmadinha nas costas e proteger...)...

Eram aí umas 2 horas da madrugada, quando estava sozinho na sala de "pequena-cirurgia". Na sala ao lado (onde ficam os doentes em "observação"), aguardava um cigano, etilizado, após uma rixa em que tinha ficado ferido. Estava a dormir e aguardáva-mos que "acordasse", para verificar que não tinha alterações da consciência e mandar embora.
Entretanto, entra pela sala um homem, dos seus 25 anos, fardado com a roupa de uma empresa de segurança. Era segurança de um shopping perto do hospital. Tinha apanhado um meliante a assaltar um automóvel e ao ir atrás dele, tinha sido picado com uma agulha (alegadamente de um seropositivo).
Estava eu a falar com ele, quando na sala ao lado, o "cigano" acorda subitamente, atira-se abaixo da maca e começa a disparatar, no português mais vernáculo e com uma agressividade marcada.
Nem tive tempo de reagir... O segurança, virou-se para ele e murmurou-lhe qualquer coisa numa língua para mim ininteligível... Rapidamente o "cigano" se voltou a deitar na maca e esperou sossegadamente até que o fomos observar...
Perante a minha cara de espanto, o segurança replicou:
- Eu também sou cigano...
- Pois... pareceu-me que sim. - respondi - E o que é que lhe disse?
- Disse-lhe: "Primo (nós tratamo-nos assim, mesmo não nos conhecendo), vê lá se te portas bem, que os doutores estão aqui para ajudar..."
- Pelos vistos resultou... - disse agora mais aliviado...
- É por isso que as empresas de segurança, contratam ciganos!

O segurança, entretanto realizou os exames ao HIV, mas ainda iria ter que esperar alguns meses para ter o resultado definitivo, devido ao período de janela do vírus e à possibilidade de "testar" o sangue do agressor.

E lá foi, sempre solícito e educado, deixando-me a pensar que de facto, não devemos julgar o todo pela parte, embora muitas vezes isso se torne complicado. E também que, como tudo na vida, a hierarquia e o valor supremo da família, aqui também tiveram um lado positivo (respeito pela hierarquia e obediência a uma voz de comando), embora por vezes, apenas mostrem o seu lado mais negativo...

E foi assim, que me ajudou a compreender um bocadinho melhor essa etnia, com tantas idiossincrasias e choques culturais, onde felizmente a maioria apenas quer "levar a sua vida com felicidade"...

Comentários:

Há uns meses atrás apanhei dos sustos da minha vida qdo 3 carrinhas ciganas me rodearam o carro.Graças a Deus n me fizeram nada mas temi pelo pior...
Mas é um bocado como dizes, até são simpáticos desde q achem q estão a ser bem tratados...
Abraços da Zona Franca e puxão de orelhas no McCap para ele voltar a escrever!  

Julgo que eles ao contrário de outras comunidades mantêm um sistema de valores muito próprio e que por vezes choca com as nossas regras (vulgo leis), até porque regra geral não cultivam a paciência nem a obediência a regras formais. Além disso tb têm alguns elementos menos bons (como todas as sociedades e profissões). Isto ajudou a criar um preonceito que está muito generalizado (é o mesmo preconceito que os pretos são preguiçosos.
Acho que seguranças ciganos muito boa ideia; para quando polícias ciganos?  

Boas!
Não páro de me espantar como é que as pessoas vão ter ao meu blog!!
Obrigado pela visita..

Quanto ao tema de hoje, acasta cigana tem as particularidades de qualquer Casta que se preze! ;)

Adaptam-se bem às regras da sociedade em que se inserem, embora numa visão muito própria das mesmas..

Tenho preconceitos em relação aos ciganos maus, na mesmíssima medida que tenho em relação aos pretos ou aos brancos maus.

Resumindo: sou racista em relação às pessoas que não prestam!  

quer queiramos quer não quando temos um cigano à frente até gostavamos de estar do outro lado da rua..."mas eu não tenho preconceitos,não senhor!"  

o teu post fez-me sorrir.
eu moro na amadora, que como se sabe para além de se matarem polícias e comerem criancinhas tem também muitos ciganos lol.
agora a sério. aqui perto de mim moram MUITOS ciganos. inicialmente tive medo deles. confesso que tive.
mas agora trato-os com a mesma naturalidade que a todas as outras pessoas. eles apenas pedem respeito.
de resto, quando sente carinho por nós são os melhores amigos que se pode encontrar.
claro que também existem aspectos negativos, mas neste momento eu estou habituada a eles.
são seres humanos, com leis próprias e formas por vezes engraçadas de ver a vida.
seria bom se as pessoas conseguissem olhar para eles não como vendedores da feira, nem ladrões ou traficantes e sim pessoas com defeitos e virtudes como todos os outros.
beijinho  

Eu tenho vivido com esta doença mortal por mais de um ano, o meu marido, descobri que estávamos ambos HIV +. Tínhamos tentar de todas as maneiras de viver nossas vidas, apesar desta coisa em nosso corpo não até que me deparei com este poderoso herbalista que interpretou que ele tinha a cure.At primeiro, ficamos mais cético, mas meu marido insistiu em dar-lhe uma tentativa e pedimos para algumas de suas ervas e em poucas semanas depois de seguir o devido processo desta fitoterapeuta, fomos para um teste de como ele nos disse também fomos surpreendidos com a felicidade quando recebi o resultado na clínica. A taxa de vírus em nosso corpo caiu e em mais algumas semanas Estávamos totalmente cured.We também perguntou por que ele não veio para o mundo que ele tinha a cura e ele disse que fez em 2011, mas foi rejeitada pela equipe de pesquisa internacional. A coisa mais importante é para você ser curado Se você quer saber sobre o fitoterapeuta chamá-lo em +234 706 542 4920 ou e-mail: herbalcure4u@gmail.com. Deus te abençoe.  
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segunda-feira, março 21, 2005

O regresso da Prima...


...vera, esse verdadeiro ópio do povo! Posted by Hello

Comentários:

Conseguiste tirar uma fotografia espectacular focando na rosa. Estás um mestre.  

A foto de facto esta um espanto , mas a Prima , não gosto dela , as flores e os passarinhos que me perdoem , por tal balsfemia dizer , mas os polens , o pó o cheiro , tudo , a sonolencia a irritabilidade , aiaiaiai nunca mais passa e ainda agora chegou , tenho de ir buscar mais um abomba e uns anti estaminicos heheheh!  

Francisco, Francisco...
Não te confio as flores do meu casório...talvez alguém que se sinta mal durante a cerimónia, mas as flores...
É uma papoila...ou papoula, se preferires, mas rosa...  

lol...

E ia a Rainha Isabel, com o regaço carregado de papoilas, para destilar e fumar umas cachimbadas de ópio, quando foi interpelada pela polícia... -O que leva aí??? -São rosas senhores!!! E milagrosamente as papoilas se transformaram em rosas...  

Vou-me já auto-flagelar pelo meu erro :)
Ou então passo a comentar como anónimo para não ter estes problemas :))  

boa foto, boas esperanças...é o que este tempo promete (mesmo sem chuva)  

Bonita chapa...
Com a Primavera regressa a Zona Franca à blogosfera...  

Primavera, a época que deixa os pombinhos de cabeça à volta...

hehe...

:)  

estás perdoado, francisco...  
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domingo, março 20, 2005

Final delicioso

Para além de concordar com este texto sobre um possível aumento do IA para compensar a não existência de portagens nas SCUTs acho o final delicioso:
"Acho bem. E, já agora, não seria possível lançar um imposto sobre a venda de bilhetes de cinema nos grandes centros urbanos para compensar e inverter a merda de programação dos Alfa-Lusomundo da cidade onde pernoito e insisto em viver? É que a interioridade não é só para os automobilistas."

Muitos mais exemplos haveria...

Comentários:

Pois havia... E já agora lançar tb um imposto sobre o ar puro respirado pelas populações do "interior", de forma a subsidiar a criação de zonas verdes nas grandes cidades?

É este o problema do socialismo bennetton...  

Ola! de facto já falta pouco para o imposto de sair a rua ... e muitos mereciam heheheeh  
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Venda livre de "medicamentos de venda livre"...

Pois é... e foi este o tema da semana, em que tomou posse o novo governo!!! (afinal está-me a sair inteligente este sócrates... conseguiu desviar as atenções dos problemas económicos, das contradições do governo, dos recuos do MNE, das trapalhadas do cenoura, do aumento de impostos...)

Rapidamente os farmacêuticos se opuseram a esta medida. Considerando que seria um estímulo ao consumo de medicamentos. Que nas farmácias os clientes são aconselhados, que o farmacêutico até sabe que outros medicamentos a pessoa toma, que alerta para os perigos de utilização dos medicamentos, etc... A realidade... nunca em nehuma farmácia, me aconselharam o que quer que fosse acerca de medicamentos de venda livre; nunca me fizeram nenhuma pergunta. Mais, várias vezes me perguntaram se tinha a certeza que não precisava de mais nada ("aconselhando-me" a toma de antitússicos, vitaminas, etc...)

Mas... vamos por partes. Que implicações tem a venda livre de medicamentos de venda livre?
1. Passam a poder estar à venda em qualquer local.
2. O controlo técnico tem de estar assegurado por um farmacêutico.
3. Qualquer pessoa que queira o medicamento o pode comprar.

Actualmente,
1. Estão à venda apenas em farmácias.
2. O controlo técnico é feito por farmacêuticos, mas a venda, habitualmente é feita por um técnico de farmácia (que não tem formação de farmacologia, nem de farmácia)
3. Qualquer pessoa que se desloque à farmácia, pode comprar o medicamento.

O que muda? As farmácias deixam de ter o monopólio de venda de medicamentos!
Mas há riscos para a saúde pública? Há e podem ser por vários motivos...
1. O medicamento tem interacções ou efeitos laterais que podem ser nocivos. Não deveria ser medicamento de venda livre.
2. Pode estimular o consumo de medicamentos. Pode, mas actualmente qualquer pessoa compra a quantidade de medicamentos que quer... Talvez se os medicamentos fossem dispensados em doses unitárias (em vez de caixas de 60, o que só beneficia as farmácias e as companhias farmacêuticas), fosse possível diminuir o consumo de medicamentos.
3. Não está lá o técnico (ou o farmacêutico) que conhece a pessoa e sabe que medicamentos ela está a tomar. Pois... actualmente também não... Basta ser preciso um medicamento durante a noite e ter de recorrer a uma farmácia de serviço...

Sinceramente, sou completamente a favor da venda de medicamentos de venda livre fora das farmácias. Além de não encontrar nenhum problema nisso (o que por si só já era um bom motivo para o apoiar), encontro ainda uma grande vantagem... Há a certeza de que uma pessoa que sai de casa para comprar uma aspirina para a gripe, não vir do "supermercado" com um antibiótico cuja receita vai depois "cravar" a qualquer médico...

Se existem problemas associados ao uso do medicamento, a solução não é limitar a sua venda às farmácias, mas sim, transformá-lo em medicamento sujeito a receita médica. Se existem problemas associados à quantidade de medicamentos usados, e ao uso de medicamentos fora de prazo, a solução passa pela dispensa em doses unitárias. Se existem problemas associados a interacções medicamentosas, o problema passa pelo aumento da informação ao utente... O monopólio actualmente existente, é benéfico apenas ao limitado número de "donos de farmácias".

O que nos leva a outro assunto, que é a limitação da abertura de novas farmácias. Porque razão não pode qualquer pessoa abrir uma farmácia, desde que o seu controlo técnico seja assegurado por um farmacêutico? Se qualquer pessoa pode abrir um hospital privado, uma clínica médica, um laboratório de análises, um supermercado, um gabinete de advogados,uma empresa de transportes ou até mesmo um laboratório farmacêutico, porque razão o mesmo não acontece com as farmácias? (note-se que não tenho qualquer interesse pessoal no caso, porque o código deontológico da ordem dos médicos, proíbe expressamente a participação de médicos em qualquer negócio farmacêutico...).
Porque é que as farmácias se mantêm como o único monopólio de uma actividade em Portugal?

Voltando ao tema... Se os medicamentos são de "venda livre", que o sejam mesmo e não apenas de nome. E se são "sujeitos a receita médica", de uma vez por todas que o sejam mesmo... Lembro-me sempre da senhora que certo dia me chegou ao CS a pedir uma receita de 9 caixas de "ben-u-ron" que devia na farmácia (sim, o ben-u-ron é sujeito a receita médica)... 9 caixas??? É dose mais do que suficiente para poder matar alguém... e foi vendido livremente, numa farmácia, se calhar na farmácia de algum dos que agora "protestam" que "nas farmácias as pessoas têm aconselhamento quanto ao uso dos medicamentos"...

Resumindo... Sim à venda "livre" de medicamentos de venda livre.
Sim à restrição da quantidade de medicamentos de venda livre.
Sim à criminalização da venda de medicamentos sujeitos a receita médica, sem receita.
Sim à liberalização da abertura de farmácias.
Sim à dispensa de medicamentos em doses unitárias.

Comentários:

Concordo com tudo o que disseste. O paracetamol (e outros) são menos perigosos para a saúde pública que os hamburguers (e ninguém pensa em vendê-los num establecimento cujo proprietário seja um nutricionista) ou que os chamados "remédios naturais" (que causam bem mais hepatites e não têm qualquer controlo).

Em relação ao Ben-U-Ron e ao facto de ser sujeito a receita. Não percebo porque é que algumas caixas de 20 comprimidos de 500mg são sujeitas a receita médica ( Ben-U-Ron, Panasorbe e Pantadolor; sendo os dois primeiros comparticipados em 40%) e outras não (Paracetamol por exemplo, que tb não é comparticipado embora seja o mais barato dos 4).  

Completamente de acordo.  

Totalmente de acordo.  

Que bonito...`
É claro que isso implica que os domicílios são para se fazer...não basta telefonar e dizer: "Vá à farmácia e peça o antibiótico "Zigzug", sim, z-i-g-z-u-g".
E se calhar aquela coisa da medicação crónica mais agilizada é um problema a solucionar...
E para melhor controlo do nº de fármacos que cada utente consome /mês ter cada utente um cartão magnético com o registo obrigatório dos fámacos comprados, com respectiva data...Ai!! Bati com a cabeça...mas era giro.
Gostei, vou vir mais vezes a este blog. Parabéns!!
Molungu  

nada a apontar. totalmente de acordo.  

Bem dito!  

Bem dito!  

foi tão bom, que tive que repetir 2 vezes :)  

Até os técnicos de farmácia concordam: http://www.publico.clix.pt/shownews.asp?id=1218814&idCanal=91  

Afinal parece que vai mudar, para ficar tudo na mesma... Pôr um farmacêutico 24 horas por dia a vender os medicamentos de venda livre nos espaços comerciais???
Além de ser desprestigiante para os farmacêuticos (que têm coisas mais importantes com que se ocupar), é um insulto à capacidade dos portugueses... Então os portugueses são "capazes" para conduzir automóveis, mas são "incapazes" para comprar sozinhos um medicamento de venda livre...
E morrem todos os anos muito mais portugueses de acidente de viação do que de intoxicação por ibuprofeno... Ridículo... Só falta mesmo obrigar os stands de automóveis a ter um instrutor de condução a explicar o funcionamento e as regras de trânsito no momento de aquisição do veículo!!!

Como diria Shakespeare: Much ado about nothing!!!  
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sábado, março 19, 2005

Comércio de orgãos

O post anterior fez-me lembrar este tema e esta é a minha opinião:
-Sou a favor do estado comprar órgãos não vitais (rim, lobo esq do fígado) a particulares e disponibilizar esses órgãos no SNS para os que estão à espera de transplante. O pagamento seria por um preço tabelado.
- Qualquer particular poderia comprar órgãos directamente, desde que cumprindo as formalidades legais, por um preço nunca inferior ao do estado mais um seguro de saúde para o dador. Neste caso a cirurgia tb ficava por conta do particular.
- O “dador” teria antes de se sujeitar a exames médicos para averiguar se o risco para a sua saúde é aceitável (só assim sendo possível a troca). Teria que ter mais de 18 anos e não ter distúrbios mentais. Este teria que aceitar as condições do contracto em duas ocasiões distintas espaçadas em 2 semanas.
- Todo o processo seria acompanhado por alguém que asseguraria que o dador não era pressionado para o fazer.
- Todos os fluidos corporais (sangue, células hematopoiéticas e sémen (e saliva se alguém quiser)) poderiam ser comercializados livremente desde que cumprissem as regras próprias de colheita e armazenamento dos mesmos.

Comentários:

???hum???  

o comercio livre de orgãos...ainda nem discutimos a liberalizaçao das drogas leves quanto mais dos rins!  

ui... que tema polémico que foste buscar!!! Em geral, sabes que estou de acordo contigo (lembras-te daquela discussão sobre a venda de urina e saliva, que tivemos na Covilhã???)

Acho que é importante realçar alguns aspectos...
1. órgãos não-vitais
2. "preço" mínimo tabelado
3. vigilância das "transacções" muito apertada
4. garantia de cuidados de saúde ao "dador"
5. compra de órgãos pelo SNS, disponibilizados a quem deles precisar

É certo que a nossa sociedade não está adaptada para aceitar estas propostas de "ânimo leve", mas uma coisa é certa, a "doação" de órgãos iria aumentar e muito, podendo assim ajudar muitas pessoas que hoje em dia, acabam por "morrer" em lista de espera.
Parece-me uma situação em que "todos" saem a ganhar... o dinheiro, pode ser muito útil para o "dador" e os órgãos, de certeza que são muito úteis para quem os recebe.

Há a teoria da rampa deslizante, em que isto pode facilitar o tráfico de órgãos vitais, o mercado negro, etc... mas isso já existe hoje. Talvez uma abertura, faça com que deixe de haver tanta pressão para o tráfico ilegal de órgãos... (as histórias de pessoas raptadas, que acordam sem um rim, não são tão irreais como isso).

Se nós podemos dispôr do nosso corpo como nos apetece, podemos fazer-lhe mal, mutilá-lo, ter estilos de vida que virão a ter consequências a nível de saúde, por que razão, não havemos de poder vender um órgão? Isto, levado a um ponto mais "liberal", até nos poderá permitir concluir que, se nos podemos suicidar, porque não havemos de poder vender um órgão vital? Aqui, já não concordo, mas confesso que mais por preconceito do que por argumentos lógicos e "éticos"...  

Voçês são é doidos!
Porque não liberalizamos também a venda de bebés? Ou legalizamos a escravatura tb?
Existem razões médicas para não se comprar sangue! As mesmas razões aplicam-se aos órgãos (não vitais, mas ainda assim importantes).  

Ó anónimo: caso ainda não te tenhas apercebido a maioria de nós somos médicos e: não há razões médicas para não se comprar sangue nem orgãos.
Tais possibilidades existem nalguns países.  

Porque é que não se há-de poder comprar aquilo que se pode oferecer??? A doação de sangue ou órgãos é uma realidade, a "compra" só funcionaria para aumentar o número de interessados (e directamente de beneficiados) em realizar o "negócio".

Ó anónimo... espero que nunca precises de um rim, mas se algum dia precisares, ias ver que gostavas de poder ter um rim disponível para te salvar a vida...`
E quanto à venda de bebés ou à escravatura... esquece, que não tem nada a ver com isto. Isto é um negócio entre duas partes, competentes (do ponto de vista psicológico), sem coacções e sem intervenção (ou decisão sobre a vida) de terceiros... Se me disseres que alguém tem o desejo de ser escravo... quem é que vai impedir isso? Se não, estamos aqui estamos a impedir as práticas sado-maso... :)  

Oi!! Não, não sou o das 9:54 PM, sou outra, e sou da maioria... Mas tenho que confessar que a rampa deslizante me faz muita confusão... Vejo tantas mãos a ser untadas por uma porcaria de uma consulta em tempo útil, ou por uma receitinha, que nem me atrevo a imaginar o que viria das mãos de quem precisa de um órgão para salvar a vida...Ah! E não estou a falar de médicos, apesar da maioria dos utentes os tentarem comprar com uma merdinha dumas garrafinhas ou de um bolo-rei... e o problema é que há quem ache que isso compra um médico...ou pior (há médicos que assim se deixam comprar... schuu).
E já agora, quem seria esse play-God que iria supervisionar e assegurar-se que a pessoa não estaria a ser pressionada para fazer a doação? Pressuponho que alguém absolutamente idóneo, como esses idóneos todos que nós vemos nos cargos que fazem as diferenças...
Não posso contudo deixar de me colocar na pele de alguém que se vê a morrer aos pedaços, na esperança que chegue o dia do telefonema a dizer...é hoje. E concerteza essa seria uma forma de haver muita gente a ouvir todos os dias...é hoje!! Só receio o à custa do quê...  

É claro que o comércio não impediria a doação (de graça) do orgão por motivos humanisticos que eu acho que deveria ser incentivada e que a actual legislação impede (excepto para familiares directos). Acredito que se 10% dos portugueses disponibilizassem um dos seus rins para doação se alguém compatível precisasse dele, quase não haveria insuficientes renais em Portugal. Além disso teriam quase a certeza que se algum dia o outro rim falhasse tb iriam ter muita facilidade em receber um rim.  

"Ó anónimo: caso ainda não te tenhas apercebido a maioria de nós somos médicos e: não há razões médicas para não se comprar sangue nem orgãos."

Médicos!

Vejam, por exemplo:
http://www.ncbi.nlm.nih.gov/entrez/query.fcgi?cmd=Retrieve&db=pubmed&dopt=Abstract&list_uids=15045013  

Ora aqui está o perigo de se falar do que não se conhece a fundo... Isto era para provar o quê, ó senhor homónimo?
Que "there is a greater risk of transmitting AIDS viruses (and possibly other blood transmissible diseases) through remunerated blood donors"? Tens noção que os testes aplicados ao sangue dos voluntários são os mesmos dos aplicados ao dos remunerados...
E caso conheças o período janela (o que é bom sinal) também existe para os voluntários. E caso nos estejas a tentar mostrar que há um grupo de risco seleccionado, tens noção que TODOS SOMOS PARTE DO GRUPO DE RISCO??? E se te chegar uma senhora de 60 anos cristâ católica praticante, com os melhores princípios, um único parceiro sexual (O Joaquim, que esteve no ultramar e diz ser um santo)e obviamente é o seu marido, e nunca se meteu em porcarias de picas na veia, tens noção que a maravilhosa e encantadora senhora pode estar igualmente infectada...
Vamos falar a sério de coisas sérias...  

Sim anónimo... e queres um artigo de uma revista (com um impacto bem maior) que diga exactamente o contrário??? Ele aqui vai:
http://www.ncbi.nlm.nih.gov/entrez/query.fcgi?cmd=Retrieve&db=pubmed&dopt=Abstract&list_uids=8174821

Para os mais preguiçosos: Given the existence of a comprehensive approach which encompasses donor safety, plasma testing, and effective manufacturing procedures, safe and efficacious plasma derivatives can be produced from plasma drawn from remunerated donors and can be made available in sufficient quantity to meet medical needs in an economic manner.

As dificuldades técnicas, quando surgem, resolvem-se por meios técnicos não por "moralismos"...  

Pois claro que pode ser feito, com razoável segurança, mas eu não li em lado nenhum o contrário do que afirmei. E eu estava a falar de sangue e não de plasma derivatives.
Quanto a essa história de não haver grupos de risco:
"donor safety" é um conceito que vem no tal artigo de uma revista com impacto maior.
Já agora, lembrem-se que existem muito mais perigos infecciosos do que o HIV.
Além disso esta nem sequer é o maior problema que vejo na vossa proposta. Não devo ser o único, pois que eu saiba em nenhum lugar civilizado do mundo se compram órgãos legalmente.
PS: nunca assinei como anónimo, apenas escolho a opção mais fácil de assinar (não o faço), em vez de ter um nick.  

Esta discussão está interessante por um lado já que o anónimo tentou dar uma justificação científica daquilo que disse e está muito fraca porque não estamos a discutir a verdadeira questão, mas um assunto perfeitamente secundário e desproporcionado. Respondendo ao anónimo (desculpem ser uma resposta extensa mas tem que ser):
1º Posso-te dizer que o governo Iraniano (talvez não subjugado por pseudo imperativos morais) compra orgãos aos seus habitantes para dar aos que precisam, num sistema regulado. Neste país não há registro de tráfico (muito ao contrário da Índia, Brasil e China onde o comércio é ilegal mas os europeus e americanos compram órgãos de uma forma que explora a miséria extrema comprando até orgãos vitais).
2º Na minha opinião o principal motivo por que não se legaliza a venda de orgãos nos outros países (reparas-te que em relação ao sangue o mesmo já não se passa): Moral judaico-cristã que diz que referencia o corpo como algo sagrado. Além disso é um assunto sem dúvida polémico e a falta de orgãos é um problema em termos históricos muito recente sendo que a maioria dos países só faz transplantes por rotina há poucos anos.
3ºHá ou não razões médicas para não se comprar sangue e órgãos: Na Nigéria as pessoas que doam sangue têm maior probabilidade de estarem infectadas pelo VIH. Muito bem. E embora não prove nada para Portugal aceito que o mesmo se passe em Portugal (com diferenças muitíssimo menores já que a prevalência do HIV é muito menor e não está tão “concentrado” nos estratos sócio-económicos baixos (os que vendem o sangue) como imagino que esteja na Nigéria). Sem estudos que o provem nos dadores de sangue parece-me que em Portugal o risco de HIV tb é maior nos homens, nos jovens adultos, nos habitantes de Lisboa e Porto, … Há estudos noutros países que provam que nos dadores de sangue é maior no homens, nos casados(?), nos com mais de 25 anos, nos não estudantes, nos estratos sócio-económicos mais baixos, nos habitantes de determinadas zonas (não ponho referências para não alongar). Será que isso prova que há razões médicas para os elementos destes grupos não darem sangue? Parece-me que não. Além disso o sangue comprado não tem que necessariamente ser para transfusões. Pode ser para investigação ou outras aplicações comerciais. Tb consideras que haverá motivos médicos para impedir a venda de sangue para estes fins?
Pondo isto em contexto: O risco de infecção pelo VIH nos países desenvolvidos é cerca de 1 por 2 milhões de transfusões. Mesmo que duplique o que é que isso interessa a quem precisa do sangue (já para não falar em quem precisa de órgãos)? (o mesmo se passa para as outras infecções transmissíveis pelo sangue embora tenham frequências de transmissão diferentes). Na Nigéria e em muitos outros países há falta de sangue e por isso eles compram. Achas que deviam deixar de comprar e dizer às pessoas que precisam que não há? Achas que há motivos médicos para isso? Em Portugal só não há falta porque embora o estado não possa comprar aos habitantes, pode comprar (e compra todos os anos gastando muito mais dinheiro) a outros estados ou empresas estrangeiras independentemente da forma como eles o arranjaram.
4º Tb nunca esperei que fosse o risco de contaminação dos orgãos o grande argumento contra a sua venda. Gostava é que me dissesses os outros argumentos para os podermos debater (considera-te desafiado).
5º Podes escrever na própria mensagem o teu nome que não dá trabalho nenhum. Mas se quiseres continuar como anónimo por mim tudo bem. Responde é ao ponto 4.  

anónimo | s. m. | adj.
do Lat. anonymu < Gr. anónymos, sem nome
s. m., aquele que não assina o que escreve;
adj., sem nome de autor, que não é assinado;


Dicionário Online Priberam...

Ó anónimo... não te passes. Se não deixas nome, só te podemos tratar por anónimo. Não precisamos de saber quem és, da mesma forma que tu não precisas de saber quem somos. Mas se não temos como te chamar, és anónimo

Respondendo às tuas questões:
1. Donde pensas que vêm os plasma derivatives?
2. Não leste o contrário do quê? Não leste que não existem razões médicas para "vender" órgãos? Claro que não... por 3 motivos: primeiro a questão não faz sentido e não é clara; segundo é mais difícil provar que não existe alguma coisa do que a existência de qualquer coisa... (uma questão de sensibilidade e especificidade dos ensaios clínicos); terceiro o viés de publicação nas revistas científicas selecciona artigos que comprovam associações, não os que negam...
3. Estamo-nos a desviar do assunto porque a "venda" de sangue é permitida em muitos países "civilizados". Aliás, só assim é que se suprimem as faltas de sangue a nível mundial... E já agora, tu é que falaste no risco de transmissão do HIV.
4. Concordo plenamento com TUDO o que disse o Francisco. É preferível infectar mais um indivíduo em cada milhão de transfusões (ou até um em cada 10 transplantes efectuados, se fosse o caso), mas ter a certeza que as pessoas que precisam do sangue e dos órgãos para viver, tinham acesso a eles.
5. Actualmente o conceito de "grupo de risco" não existe. Existem "comportamentos de risco", o que é bem diferente!
6. Não duvides que a breve prazo a comercialização de órgãos não vitais (com limitações obviamente) vai ser uma realidade nos países desenvolvidos.
7. No Reino Unido, por exemplo, existe já um movimento que está a pedir a liberalização da venda de órgãos não vitais, como única forma de suprir a procura.
8. A única justificação que é dada pelos especialistas em bioética para proibir o comércio de órgãos é a valorização filosófica e religiosa do corpo enquanto património da humanidade e da hiper-valorização do corpo humano. Não querem que partes do corpo humano sejam tratadas como "mercadoria" apenas e só porque isso é desprestigiante para o homem. Para mim desprestigiante é deixar alguém morrer, porque continuamos agarrados a filosofias do século XIX, e temos tecnologia do século XXI...
9. Considera as nossas respostas como um desafio para participares e não como um "ataque" pessoal. Se nós não quiséssemos discutir estes temas, não escrevíamos num blog público...

cumprimentos e até breve!  
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sexta-feira, março 18, 2005

Sabichona...

Hoje, uma das "minhas" doentes, com 5 anos, internada por uma crise de asma, disse-me:
"- Quando for grande, quero tirar sangue no laboratório..."
- Ai é?? - respondo eu - Gostas de tirar sangue?
- É... E depois ganho mais que os médicos no hospital..."

Como diria o saudoso... E esta, hein?

Comentários:

OK... Parece que a mentalidade começa a mudar...
Já há pais que em vez de dizerem aos filhinhos "Tens que estudar muito para entrares em Medicina, para seres médico e ganhares muito dinheiro...", lhes dizem "Oh filho, não te mates a estudar, que há muitos cursos que se fazem com uma perna às costas, aos quais o acesso é feito sem stress, e que te proporcionam um futuro no qual o esforço e a responsabilidade são bem menores e o salário é o triplo...". Ou mesmo "Medicina? Isso dá muito trabalho!! Pr'a não falar do caro que fica tirar esse curso!! E depois? Toda a gente se queixa dos médicos... Olha, vai pr'a picheleiro, ou pr'a electricista...só cá vêm quando imploro, três ou quatro dias depois de ter a casa de banho sem autoclismo, pago e não bufo e ainda me desfaço em agradecimentos no final..."
Mas a uma criança de 5 anos...será que já dizem estas coisas? Ou será uma sobredotada?  

Sempre há os bruxos natos, ou a reencarnação, o deja vue, um conhecimento "desconhecido". A minha dúvida é se ganha mais a tirar o sangue (técnico/enfermeiro/etc, o que é verdade) ou a receber por dar sangue (o que é preocupante)  

Não a criança não é sobredotada , os principios estão invertidos e de certeza absoluta que a maezinha , ja a esta a ensinar que o mais importante da vida é o dinheiro , uma vida confortavel... enfim temos de reconhecer que ja ninguem acredita no principe encantado , muito menos depois de se ter visto o Shrek2 ,a culpa é enfim da sociedade em que vivemos e anda trocada ... que futuro  

Não a criança não é sobredotada , os principios estão invertidos e de certeza absoluta que a maezinha , ja a esta a ensinar que o mais importante da vida é o dinheiro , uma vida confortavel... enfim temos de reconhecer que ja ninguem acredita no principe encantado , muito menos depois de se ter visto o Shrek2 ,a culpa é enfim da sociedade em que vivemos e anda trocada ... que futuro  

cada vez mais se veem situações destas!
aos 5 anos eu só pensava em fugir das agulhas (bem hj também, embora as enfrente enquanto dadora lol, nem sabia onde era anlisado o sangue e quando muito julgaria que era uma m´aquina lá no consultória (genero maquina de lavar) que ao fim de 2 minutos mostrava os resultados...e dinheiro era aquilo com que a minha mãe pagava o café e o meu "riboxado"!  

Acho que os médicos são mal pagos, mas felizmente ainda ganhamos mais que os técnicos de laboratório (os salários dos professores para os respectivos horários é que me parecem escandalosos).

Quanto ao comentário do jocapoga em Portugal é proibido o comércio de qualquer orgão ou fluído biológico (ninguém pode pagar a quem dá sangue). O único benefício directo que tens em dar sangue é um lanche (regra geral fraco).  

Francisco, (eu sei que nós sabemos, mas ainda há quem não saiba) e não só, se fôr um dador regular, fica também isento de taxa moderadora.  
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terça-feira, março 15, 2005

Não podemos deixar de sorrir

Face a estas notícias não podemos deixar de sorrir. O meu conselho é leiam o livro e aproveitem para ler o livro anterior do mesmo autor Angels and Demons.

Comentários:

:)  

Olá. Descobri hoje este blog e ainda agora vou ler o resto. No entanto, gostaria de dizer que acabei de ler este livro e recomendo vivamente. Mais do que tentar saber se o que diz é verdade ou não, o rol de conhecimentos, a cultura deste escritor é de louvar.
Leiam e aprendam como as coisas mais simples da vida tem uma origem tão profunda.
Beijinhos e continuação de um bom trabalho.
SCP  

Aqueles que habitualmente consultam a nossa secção de "leituras recentes" já conhecem a minha opinião sobre esta obra: Uma nulidade literária! No entanto acho absolutamente hilariante que a igreja católica venha a público criticar e desaconselhar um livro, qualquer que ele seja, só porque o autor, nos seus devaneios imaginativos (sim porque é assumidamente uma obra de "ficção"), "ousa" opor-se pensamento eclesiástico vigente.
Mais uma vez pergunto: para quando uma nova inquisição?
Já agora, se não leram o livro, esperem pelo filme!  

Este comentário foi removido por um administrador do blogue.  

acabo de chegar aqui e concordo com a opinião do betadine.
adoro ler e ainda não consegui ler o raio do livro até ao fim.
a escrita do senhor é de escola primária. não me puxa minimamente. vai na volta ainda espero pelo filme.
agora..a igreja proibir o livro.. é ridículo se bem que previsível.  

Já agora literatura para intelectuais aconselhasse o livro do Mourinho. Sempre escreve sobre coisas que não estão acessíveis a qualquer um.  

Fico curioso de saber o que aconteceria se se mantivesse o enredo do livro mas mudando os personagens para Buda, o Dalai Lama e Suzuki ;-)  

Nem de propósito... também hoje escrevi sobre isso no meu blog!
Mas palpita-me que temos opiniões diferentes ;)  
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segunda-feira, março 14, 2005

A maior crise humanitária da actualidade

Esta é a maior crise humanitária da actualidade. Não é o resultado do maremoto no sudeste asiático e muito menos as venturas e desventuras do recém eleito governo de um pequeno país à beira mar. Tal como eu já aqui tinha referido parece-me que a crise no sudeste asiático foi hiperinflacionada pelos media (comparativamente com as outras). Serviu para muitos benfeitores de ocasião se poderem sentir bem consigo próprios e agora durante os próximos tempos não há dinheiro, nem vontades, nem lugar em destaque nos media para mais nada.
É verdade que esta é uma situação em que é mais dificil intervir. Há uma guerra que complica. Mas se:
- esta fosse uma zona com importância geoestratégica que originasse uma vontade feroz de procurar armas de destruição macissa e guiar o país para uma democracia;
- tivesse o destaque televisivo com repetição em horário nobre de cenas chocantes e os multibancos alertassem para a situação e disponibilizassem um meio fácil de prestar donativos para a ajuda
==» já o assunto estava resolvido há muito tempo e com outros meios. Mas assim é o Mundo!

Comentários:

Concordo plenamente , pois para as catastrofes e situações mediaticas que dão audiencias existem sempre contas e dinheiro , porque é que a estes não chega nada , nao entendo , é desesperante ...  

va-se la saber porque diabo?  

É triste constatar que os nossos media só querem é espectáculo... Mas é sempre assim...  
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Às segundas leituras (VI)

Uma semana com muitos textos... Rapidamente e para não perder tempo:

Política nacional: o balanço do governo cessante e algumas opiniões sobre o governo que agora começa... (sem brilho e já com algumas trapalhadas).
Ainda uma referência para este comentário da blogosfera de esquerda, que acha muito bem aumentar os impostos, porque "as políticas de esquerda, vivem à custa dos impostos dos ricos"... pois, só gostava de saber onde é que vão "chupar" quando conseguirem transformar os ricos em pobres (basta atentar em TODOS os exemplos do socialismo marxista - vulgo comunismo...).
Uma palavra (uma vez mais) para a diferença de tratamento aos políticos (e às políticas), por parte da comunicação social. Ao que parece, é "politicamente correcto" atacar as opiniões de centro-direita (e os seus protagonistas), ao mesmo tempo que se dá um "estado de graça" à esquerda e não se "pressionam" os seus intervenientes... Enfim, modas!

A política internacional, uma vez mais dominada pelos ecos vindos do Médio Oriente. Por um lado, os gritos de liberdade e democracia vindos do Egipto, Líbano, Iraque e Afeganistão, fazem perspectivar um futuro melhor para todos, numa altura em que ainda estamos todos "amedrontados" com o 11 de Setembro e o 11 de Março; por outro lado, a estratégia de Bush (esse que era parecido com o Hitler, menos no bigode) poderá estar a resultar, o que pode deixar a "Europa" numa posição ingrata e poderá obrigar alguma esquerda intelectual anti-americana a "engolir uns sapos"...
Ainda na Europa (ou nas Europas, como sugere o título da crónica), uma perspectiva acerca das diferenças entre os "estados liberais" (que têm apresentado desenvolvimento económico crescente) e dos "estados sociais" (com crise económica generalizada, desemprego e insatisfação generalizada). É a diferença entre o empreendedorismo e o conservadorismo; entre o risco de ser feliz e o medo de perder as regalias sociais...

A nível de saúde, a mega-fraude na ADSE, alegademente perpetrada por dois médicos. A ser verdade, espero que sejam condenados não só pelos tribunais, como severamente punidos (expulsos) pela Ordem dos Médicos. Estes sim, dão "mau-nome" à classe médica...
Uma reflexão interessante sobre os modelos de gestão hospitalar. A comparação entre o estado totalitarista, tecnocrático e "omnipresente", e o estado regulador e controlador, que deixa iniciativa à sociedade civil, ao empreendimento privado, sendo inclusivamente capaz de concorrer com estes, garantida que esteja a qualidade do atendimento na doença.

Finalmente, uma palavra para José Mourinho... O português mais bem-sucedido da actualidade, que em poucos meses passou de besta (quando treinava o campeão europeu que só ganhava títulos devido ao "sistema"...) a bestial, quando conseguiu vergar os arrogantes ingleses e espanhóis, ao talento, raça, perseverança e capacidade de liderança de um "portuguesinho de gema". São inevitáveis as comparações entre este verdadeiro líder e os outros líderes que por cá vamos tendo.
Ainda hoje, conhecida mais uma acusação a Mourinho, por ter feito o que todos os treinadores fazem de forma dissimulada: criticar um árbitro. Parece que o dito sofreu ameaças de morte e por isso vai deixar a arbitragem, e querem fazer crer que a culpa é do Mourinho. Não é dos imbecis que o ameaçaram de morte, não é de todos os outros que destilam ódios na comunicação social, não é dos jornais espanhóis que afirmam que o Chelsea só ganhou porque o árbitro roubou o Barcelona, não é... (enfim, quantos exemplos poderia dar aqui...)
Ah Grande Mourinho, que tens as costas largas. Ainda bem que o teu ego é do tamanho da tua inteligência e obrigas certos "seres superiores" a reconhecer que afinal és o melhor!!!

Comentários:

o 1º e o 2º textos são eles tb bem tendenciosos. O 4º parece-me mais equilibrado. Concordo contigo em relação ao 3º e ao Mourinho.  
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domingo, março 13, 2005


Florença: jogo de Calcio Histórico (segundo os italianos a verdadeira origem do futebol). Muita tradição e uma verdadeira batalha campal (30 contra 30 e a bola nunca pára) com assistência médica qb. Ao fundo Santa Croce, um dos panteões italianos onde estão os restos mortais, entre outros, de Michelangelo e Galileo Galilei.

Comentários:

Florença nem se comenta , tenho umas fotos muito giras ...  

bonita foto... e o teu lugar na superior sul também não era mau... :)

já agora, florença, talvez tenha sido o berço não só do calcio, mas talvez de todo o pensamento e cultura que serve de base à civilização ocidental contemporânea...  
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A recta final


Beara Peninsula - Rep. Irlanda - Maio 2004 Posted by Hello

Tal como o ciclista da imagem, o meu percurso académico/profissional, começou bem lá em baixo, onde o vale glaciar se encontra com o Atlântico. E depois de muitos quilómetros percorridos, falta apenas um último esforço para... iniciar nova subida: o exame de acesso à especialidade aproxima-se inexoravelmente e tenho ainda umas últimas pedaladas para dar.

Para quem não conhece a "carreira" de um médico, este exame (no próximos mês de Junho) é O exame, que definirá toda a minha vida futura. Com base na nota do exame (e exclusivamente desta), depende a especialidade que poderei escolher para toda a minha vida profissional. E como tal, impõe-se que aumente a "potência" das pedaladas e que não mais me distraia do meu caminho. Vejo já o pelotão à minha frente, pelo que tenho que fazer um esforço para não descolar e chegar à recta final com perpectivas de poder fazer um bom sprint, para conseguir uma boa classificação.

Serve isto tudo para dizer aos potenciais leitores, que nos próximos meses, as minhas visitas a este blogue deixarão de ser tão regulares como até aqui, porque rapidamente o que começou como um hobbie se está a tornar num vício.

Serve também a presente para manifestar o meu profundo desacordo com o actual sistema de acesso a formação pós-graduada na Medicina (vulgo especialidade). Actualmente, após 6 anos de curso e 18 meses de internato geral (para quem começou este ano, já são "apenas" 12 meses), em 5 áreas diferentes (Medicina Interna, Cirurgia Geral, Pediatria, Ginecologia/Obstetrícia e Cuidados de Saúde Primários), somos confrontados com um exame de escolha múltipla com 100 perguntas de cerca de 1.000 páginas de um livro de texto de Medicina Interna, onde qualquer assunto, qualquer detalhe ou excepção são potencialmente perguntáveis. Desta forma, o que é avaliado e seriado, não é a nossa capacidade clínica, a nossa aptidão prática, a nossa destreza de exame e comunicação, nem tão pouco a nossa capacidade de aplicar in loco a "ciência dos livros". Antes, preferem avaliar a nossa capacidade de memorização... Como se isso fosse muito importante para, por exemplo fazer uma microcirurgia de reanastomose vascular... Sem dúvida que o conhecimento teórico é importante, mas talvez a capacidade técnica, a acuidade diagnóstica, a comunicação e tantos outros aspectos que fazem da Medicina a mais científica das artes, sejam preponderantes.

Já expressei portanto o meu profundo desacordo com o actual método de selecção e formação pós-graduada... mas e alternativas? Muito simples na minha opinião... Ser como nos países ditos "desenvolvidos": uma combinação entre uma "prova" de conhecimentos específicos para a especialidade para a qual nos candidatamos (talvez não interesse muito a um otorrinolaringologista português saber que a prevalência de Doença de Crohn é superior nos Judeus Ashkenazi, ou a um radiologista saber que o serótipo do vírus da Hepatite B nos Estados Unidos é diferente do do Sul da Europa), e uma "entrevista" ou análise de perfil (currículo, aptidões práticas, comunicação e personalidade), uma vez que as características necessárias a um Psiquiatra ou a um Ortopedista são muito diferentes e não-avaliáveis pela capacidade de memorização.
E as "cunhas"? perguntam-me alguns... E então? Respondo eu.... O que acontece actualmente é que quem tem "possibilidade de meter cunhas" o faz descaradamente (qual de nós nunca ouviu a história do director de serviço que ameaça que alguém que não seja o seu desejado para a especialidade, nunca conseguirá terminar e fazer o exame final de especialidade). E algo, que eu considero muito mais grave do que isso é a desresponsabilização dos serviços e dos orientadores de formação, uma vez que não tiveram nenhum peso na escolha do candidato. O orientador e o serviço, podem sempre chegar ao fim e dizer que o "candidato" ou o interno, não fizeram melhor, porque ele não conseguia mais. Ao passo que, dada a possibilidade de escolha dos candidatos ao serviço, esta desculpa não é válida, porque foi o próprio serviço que o seleccionou porque achou que era o mais capaz. Isto, aliado ao facto de acreditar que todos os serviços querem ser "melhores do que a concorrência" e que portanto escolheriam o candidato mais apto (salvo raras excepções - que não existe forma de as evitar), para que o seu serviço pudesse melhorar. Sinceramente, preferia ver recusada a minha candidatura a um serviço face a outro menos apto, porque era amigo do irmão do primo do director de serviço, do que ser aceite e ser constantemente atraiçoado, porque "roubei" a vaga do amigo do irmão do primo do director...

Termino, que a reflexão já vai longa, com a certeza que ainda voltarei a falar neste assunto, provavelmente de forma mais ordenada e organizada...

Até amanhã... ou talvez não, mas há vícios que são difíceis de abandonar...

P.S. - Não, não sou amigo do irmão do primo de nenhum director de serviço... Nem sequer filho, sobrinho, afilhado ou sequer amigo íntimo de nenhum...

Comentários:

Começando pelo fim - de acordo, há séculos.
Indo ao princípio - boa sorte, sorte, sorte (aliada aos conhecimentos, claro está)  

Isto de avaliar é terrível...Os métodos nem sempre são os mais indicados mas o nosso país infelimente é assim...gosta de pecar pela injustiça.
Quando é o teu exame?? Que especialidade pretendes?? E a Cecília?? Desejo-vos muita, muita sorte.
Beijinhos,  

Olá! primeiro , desejo-lhe imensa sorte , break a leg ;-) , que consiga decorar tudo e ter acesso a especialidade que deseja!
O maior problema dos acessos , por mais que lhe custe aceitar , foram criados por eles , O maior LoBBy profissional que existe em Portugal , onde 2/3 médicos dominavam uma especialidade e ai ja não se abriam vagas para afastar a concorrencia ...
Sei bem do que fala ... dava para 100 post  

compreendo a ausencia , mas qd poder apareça com os seus Post´s ! compreendo perfeitamente o Hobbie tornou-se um vicio...  

É medman. Vamos mas é estudar. Mas eu tal como tu tb já tenho um bocado este "bichinho" e além disso serve de intervalo. Boa sorte  

obrigado pelos desejos de boa sorte, mas já cá estou outra vez...

boa sorte para ti também Francisco.

quanto ao "sistema" de acesso à especialidade, admito que possa ter tido a sua utilidade num processo revolucionário pós Estado Novo, em que se terá passado do Clientelismo e dos Lobbyes, para um processo de anarquia e desregulação desenfreada.
Actualmente está completamente anacrónico e desajustado às necessidades cada vez maiores de uma Medicina eficaz e compentente!

Obrigado a todos!  

Agora compreendem porque me recuso a colocar posts... pelo menos até Junho! Depois do exame vão ter que me gramar. Bom estudo a todos!  
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sábado, março 12, 2005

Quanto ganha um médico?

Depende... em início de carreira, ganha cerca de 850€, durante o internato da especialidade (em que são médicos autónomos e mão-de-obra para todo o serviço), cerca de 1.300€ (num horário de 42 horas semanais), um assitente hospitalar (médico especialista) em regime de 35h por semana, não chega a 2.000€ (valor por excesso).
Ora isto, no melhor dos casos (médico especialista) traduz um "vencimento-hora" de cerca de 15€ (após impostos). 15€/hora??? Quanto ganha um "picheleiro" ou um "electricista"?
E isto, sujeitando-se a trabalhar durante a noite, aos fins-de-semana, em condições degradantes (para os profissionais e especialmente para os doentes). E obviamente que após o final do seu horário (ou em alguns casos "durante" o seu horário), tentam fugir para a medicina privada, para aí sim, poderem ganhar mais uns "trocados"...

Se queremos um Serviço Nacional de Saúde eficaz e profissional, temos que recompensar os profissionais em consonância. Não podemos esperar que os profissionais de saúde tenham um bloco operatório a funcionar durante a tarde, quando em "apenas" uma tarde de trabalho na "privada" conseguem ganhar mais dinheiro do que num mês inteiro no hospital.

E de certeza que não sai mais caro ao estado... Um dia de internamento de um doente num hospital público (sem realizar actos de diagnóstico e sem terapêutica) está avaliado em custos para o estado de cerca de 200€. Quantos "dias de internamento" se poderiam poupar se os hospitais funcionassem " a sério" durante todo o dia?
E nos Centros de Saúde? Os médicos dos Centros de Saúde são obrigados a fazer no mínimo, 4 consultas por hora (o que dá a módica quantia de 3.75€ por consulta), sendo que num horário de 35 horas, fazem cerca de 7 horas de consulta por dia... E todos se queixam das "demoras" em conseguir consultas nos Centros de Saúde. Quantas mais consultas não seriam feitas se os médicos tivessem incentivos para "trabalhar" mais horas?

E isto já para não falar da produtividade... Qual o incentivo para fazer mais consultas? A retribuição ao final do mês, é a mesma para os médicos que "fazem 500 consultas" do que para os que não fazem nenhuma... ou 100.
Sei que muitos médicos são contra o sistema de incentivos de produtividade. Sei que muitos também são contra a gestão privada dos hospitais. Pela minha parte... sou totalmente a favor. Que se recompense quem mais trabalha, que se recompense quem trabalha melhor (nem sempre quantidade é sinónimo de qualidade), e acima de tudo, que se recompense quem é mais competente!
Acredito profundamente que se os profissionais de saúde não precisarem de recorrer à privada para "receber mais uns cobres ao fim do mês", se forem recompensados pelo seu esforço e dedicação, se lhes forem dadas mais competências e autonomia, o sistema funciona melhor para todos... médicos, doentes, estado e sociedade!

Basta ver pelos exemplos (Unidade de Cirurgia Cardio-Torácica dos HUC, novo modelo de gestão dos centros de saúde)... basta haver vontade de deixar aos profissionais o que é dos profissionais e inverter a "proletarização" dos profissionais de saúde. Gosto de pensar que sou (e serei ainda mais no futuro) mais do que um "operário"...

Comentários:

Pois , sei que se matam a estudar para entrar, matam-se a trabalhar para ser os melhores e conseguirem notas na especilaização , mas tb a 12h ja não se apanha nenhum médico num hospital civil... estão todos na privada e pelo menos os que conheço andam de jaguar e similares ...
Compreendo mas não tenho pena ...
O sistema esta mal estruturado , como muitas outras coisas ...
De facto todos queremos ser mais que um mero operário ...
Mas olhe eu estou a caminho do Mestrado e descobri que ganho tanto como a governanta do meu avô...
Foi cá um balde de agua fria  

A questão não é o que se ganha.
Há muitos anos que resolvi preferir "viver pior" económicamente "vivendo melhor" sendo escravo, não do dinheiro, mas da liberdade, do tempo para a família, para mim e para os meus "prazeres".
Áh, sou um defensor da produtividade, eficiência, honestidade, gestão criteriosa, do conhecimento aprofundado, profissionalismo cuidado e, abomino toda e qualquer balda, e não evito "puxar as orelhas" a quem o merecer.
A questão, é o rótulo que se tem: "Dr = grande vencimento". E este rótolo, aliado ao conceito erróneo de deus/diabo (com letra pequena)... = bomba  

concordo plenamente , o problema reside no facto , que a sociedade vive no chamado Life Style , e não em Quality Oriented ...daqui é facil seguir por outros caminhos a futilidade o quer ser mais do se é , viver pela aparencia , trabalho numa area conotada de futil , o marketing ... acho que não precisod e dizer muito mais!
Dentro do marketing adoro a Gestão e Criação de Marcas , acho que não preciso de falar muito mais ,
Esta claro que a prioridade de vida da maior parte dos Portugueses esta canalizada para o consumismo, e o eu tenho mais que tu !!!
Não é a minha maneira de estar até porue quem já vio a morte de frente ... pensa de uma forma simples
Gosto de coisas simples sem complicações .. logo o chefe que me desculpe , mas a empresa não é a minha prioridade de vida , a minha vida é a minha prioridade ( heheehh)  

Viúva negra: é precisamente por isso que às 12 horas (isto é um bocado exagerado, mas pronto), se vêm poucos médicos no hospital... Porque numa tarde de trabalho na privada ganham quase tanto como num mês inteiro no hospital... E os que andam de Jaguar... sai-lhe muito do trabalho... quantos deles não trabalham 80 horas por semana (o dobro do que trabalha qualquer outro funcionário...)

Jocapoga (gostei do novo nome...) - a opção por exclusividade no serviço público, não implica obviamente falta de competência, mas são opções que têm que ser feitas. E se há quem prefira ter menos a nível material, para ter mais liberdade, há quem prefira trabalhar mais tempo, para ter mais "coisas". O que interessa é que o trabalho seja feito com competência e honestidade. Mas sinceramente custa-me um pouco, actualmente ganhar menos do que uma empregada doméstica (3,5€/hora)...  

Eu compreendo isso tudo , mas tb não é assim tão negro e se alguns trabalham 80 horas , é porque querem , ou entraram numa roda viva que ja nao conseguem parar...
Eu mesmo que tenha todo o trabalho feito ao meio dia , nao posso sair porta fora da empresa , era despedida
Qualquer funcionario publico , não pode sair da empresa , os médico sim...  

Continuo a achar curioso que se pense que a qualidade do "sistema" depende dos médicos. Então aqueles exércitos de gente que está nas administrações, coordenações e gestões faz o quê? Quando se avalia a produtividade dos médicos dos Centros de Saúde pela capacidade (habilidade?) de "fazer" consultas de 15 minutos, o que é que isso tem a ver com médicos? Quem avalia estes senhores gestores, quem lhes pede responsabilidades pelo que decidem e pelas consequencias das suas decisões?
Sabiam que os hospitais para onde se transferem doentes urgentes, nalguns sítios deste apís, foram decididos pela autarquia?
Antigamente, na ditadura, atiravam-nos com a PIDE para cima, agora atiram-nos com demagogia...  

Comentários:
-medman: concordo com vencimento segundo produtividade, mas para tal poder acontecer a qualidade (técnica e humana) do acto médico (e dos outros profissionais da área da saúde) teria que ser avaliada. Nesta área o doente não tem conhecimentos para saber se foi bem atendido. Eu não quero que as consultas no centro de saúde seja o doente a entrar e o médico sem levantar os olhos a receitar logo após a primeira queixa do doente, negligenciando tudo o resto.

Exclusividade: desculpem-me mas eu não entendo esta separação. Acho muito bem que quem queira trabalhar só no SNS o possa fazer. Mas para o mesmo horário pagar menos a alguém só porque após o horário laboral ainda faz privada não compreendo. Se me dizem que é porque eles acabam por sair mais cedo então responsabilize-se os directores de serviço.  

Pois , o director de serviço não esta lá , eu sei , não precisa de dizer , sei como funciona , o esquema , mas garanto-lhe que a culpa é sim , do sistema , e de gestores que são uns nabos , por que uma unidade hospitalar, não pode ser gerida da mesma forma que uma empresa , excepto os privados , facturar é a palavra de ordem , acho que deve ser muito dificil , trabalhar sabendo que se tem os custos controlados e justificar todos os meios utilizados para fazer um diagnostico correcto e seguro , na saúde convem pecar pelo excesso ...
Mas muita desta politica advem de excessos de outros tempos , tem de se encontrar o meio termo ...  

Francisco: concordo plenamente em tudo o que disseste (aliás, por isso é que no texto disse que quantidade não é sinónimo de qualidade e que se deve premiar a competência...)

cls: a qualidade do sistema depende até certo ponto dos médicos (satisfação com o atendimento, competência, profissionalismo), mas desejavelmente (na minha opinião, como sempre) deveria depender ainda mais... os médicos deveriam ter maior capacidade de "decidir" as políticas de saúde; raramente vejo alguém a queixar-se dos serviços prestados na medicina privada, em que as instituições são coordenadas por médicos, competentes e bem-pagos

viúva-negra: o médico, teoricamente também não pode sair ao meio-dia... mas há médicos cujo horário é sair ao meio-dia (ou há uma), porque completam o seu horário em trabalho nocturno, por exemplo. Aliás, a experiência que tenho (a nível hospitalar e de centro de saúde) é que a generalidade dos médicos, cumpre mais horas de trabalho do que o seu horário (mas obviamente que existem muitas excepções...)
Tb não acho mal que os médicos queiram trabalhar 80 horas, agora, não os podem acusar de "ser materialmente bem-sucedidos", como se isso fosse algo desonesto. É fruto do seu trabalho, ponto final parágrafo (a não ser para alguma esquerda progressista, que é contra a riqueza individual).
Mas também não acho que a culpa seja só dos gestores. Há muitos médicos "culpados" por omissão, negligência e colaboração com certas políticas economicistas; e muitas vezes são os próprios a não dar o exemplo e a facilitar o desperdício.
Nem acho que na saúde se deva pecar por excesso. Considero isso um erro tão grave como pecar por defeito. Se os efeitos não se notarem directamente no doente em que se pecou por excesso, podem-se reflectir noutro, que até precisava dos recursos mas eles estavam a ser utilizados. Temos que ser racionais e tomar as decisões com base nas melhores evidências que temos.  

Penso que o problema que este país atravessa em relação à falta de médicos nos serviços hospitalares, quando estes SÃO pagos para lá estarem, mas que na realidade NÃO estão, não se prende em nada com o aumento do ordenado aos médicos.
A solução, a meu ver, seria demitir todos os médicos que trabalham no privado. É radical, não é? Eu sei que sim, mas é a única solução para que NÓS, contribuintes, DEIXEMOS DE SER EXPLORADOS PELA CLASSE MÉDICA. Falo por experiência própria, e por todos os cidadãos com medo de falarem, por medo de colocar a sua saúde e um atendimento, mais ou menos, decente, diga-se de passagem, por parte destes profissionais de saúde.
Falta à classe médica um pouco de seriedade e dignidade no seu trabalho, pois não se abandonam postos médicos em horário de serviço, atenção é de serviço (e são muitos dos senhores(as) doutores(as)a fazerem destas habilidades); não se pede caridade, mas sim honestidade para com um povo que trabalha e não vê os seus direitos preservados.

P.S. Sei que os bons médicos, dignos da profissão de lutar pela vida, não ficarão indignados com este texto, dado que é uma revolta que eu já presenciei por alguns bons profissionais na área de medicina; quem ficará indignado, revoltado, enfurecido, etc, etc, serão aqueles, citando a expressão popular, em que "a carapuça assentar que nem uma luva"  

Coitados.  

um picheleiro ou electricista ganha a hora no melhor dos casos 10€ á hora, trabalhando por conta propria e desses 10€ tem de pagar a deslocaçao, o seguro, o irs e irc, tem de pagar também os decontos da segurança social, no fim de contas leva 5€ limpos para casa, trabalha ao sol, a chuva, por vezes 16h por dia, todos os dias, sabados também... e nem sempre tem trabalho, por isso senhores medicos, falem do que sabem, nao daquilo que pensam saber!!!! um electricista a trabalhar por conta de outrem nao ganha mais do que 700@ limpos....muitas vezes com horas extra... e existem mais electricistas desempregados que medicos... pensem bem antes de falar do que os outros ganham, porque nao vejo nenhum medico a fazer a conta a vida para ter dinheiro para comer e sustentar os filhos!!!!!  

Aqui no Brasil o médico ganha cerca de 10 euros a consulta - quando pagam bem, pois a médica é de 5 euros. Note: estou falando de consultório privado, movido à convênios médicos que exploram inescrupulosamente médicos e pacientes. Ainda há o agravente deste pagamento irrisório chegar com 2 a 3 meses de atraso - os convênios nunca pagam de imediato.
No serviço público já é outra conversa: os médicos ganham cerca de 10 euros por hora, mas são obrigados a atender em média - na maioria dos ambulatórios públicos - cerca de 40 pacientes em 4 horas. Ou seja, 10 pacientes por hora.
Some-se à isso o fato de que, na maioria dos serviços, não há recursos disponíveis para tratar ninguém que dependa de procedimentos como exames, cirurgia ou fisioterapia.
Há na verdade relatórios elaborados pelo governo e usados em campanhas eleitorais com números incríveis de produtividade médica na medicina pública, sem no entanto nenhuma explicação de seguimento clínico ou sucesso nos tratamentos propostos.  
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Serviço Público

A RTP 1 prestou hoje um verdadeiro serviço público aos portugueses. Uma hora e meia de puro entretenimento: o Mr. Bean e a tomada de posse do novo governo.
Segredam-me aqui ao lado que a ordem foi ao contrário... Não sei, nem dei pela diferença!!!

Comentários:

Ainda bem que não vi !  

LOOOOL  

LOOOOL  

Tinha a TV ligada só para fazer companhia...nem sequer estava a ver - só ouvia e me ria porque parecia o padre a rezar a missa e todos os outros a ver e a ouvir...  
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sexta-feira, março 11, 2005

Queria comentar mas não posso...

Uma vez que o Blogger resolveu fazer como o Porto (ou seja... passar-se dos carretos!!!) e não posso comentar a mensagem anterior, aqui vai um texto, em jeito de comentário...

Tal como os doentes com tuberculose (que é um problema de saúde pública), que recusam o tratamento devem ser tratados (numa cela, Francisco???) compulsivamente, acho que os fumadores, que se recusam a deixar de fumar em espaços públicos, deviam ser "encarcerados", porque estão a contribuir em grande medida para que "os outros" venham um dia a ter um cancro do pulmão! - (que achas Francisco???)

Agora mais a sério... Liberdade, é a capacidade que um indivíduo tem de fazer o que lhe apetece, desde que não prejudique os outros. Ou, como se costuma dizer, a liberdade de cada um termina quando começa a liberdade do outro. É um facto que um doente com uma doença contagiosa é um potencial foco de transmissão de doenças. É também um facto que, a partir do momento em que se trata, deixa de colocar esse risco à sociedade. Mas será também verdade que a sociedade está verdadeiramente interessada na promoção da saúde? A mesma sociedade que defende os direitos dos fumadores, pondo assim em risco (entenda-se por risco o aumento de probabilidades de vir a ter uma doença) de ter um cancro do pulmão (ou do cólon, ou da bexiga, ou uma DPOC ou...) a restante população? A mesma sociedade que permite "publicidade" a estilos de vida muito pouco saudáveis (fast-food, sedentarismo...)? A mesma sociedade que não encara de forma séria o combate à toxicodependência? A mesma sociedade que tolera a violência no contexto familiar? A mesma sociedade que pretende ignorar a existência da SIDA, não apostando de uma forma clara na "inversão" do seu ritmo de contágio?

Se calhar o problema não é de leis... É um problema cultural. Porque entre correr o risco de ser contagiado com uma tuberculose ou uma cólera (ambas de "declaração obrigatória"), ou por outro lado correr o risco de vir a ter um cancro do pulmão por fumo passivo, uma SIDA por risco profissional ou um AVC (acidente vascular cerebral) aos 40 anos por má-alimentação, acho que prefiro o primeiro risco.
O problema é cultural! O problema é sequer a sociedade tolerar que existam indivíduos que sabendo da sua doença (contagiosa) se recusam a tratar. É tolerar que, inclusivamente dentro de unidades de saúde se fume sem nenhum "pudor".

Os fumadores que me perdoem... (ou não, também não faço questão disso), mas considero o acto de fumar em espaços públicos, tão irresponsável, como o acto de recusar o tratamento de uma tuberculose... e espero que este exemplo do "tuberculoso-que-não-se-quer-tratar", vos possa servir de reflexão...

Comentários:

Francisco levantas uma boa questão, eu também acho que não está previsto o tratamento compulsivo no caso da Tuberculose, mas está previsto no Código Penal (art 283) que quem propagar doença contagiosa e criar desse modo perigo para a vida ou para a integridade física de outrem é punido com pena de prisão de 1 a 8 anos (se o perigo for criado por neglicência a pena é até 3 anos). Aí já os podes tratar na cela, mas para os prenderes tens que ter um segundo caso e tens q esperar q o doente seja julgado, etc, etc, com o tempo q demora a justiça o mais provável era q ele morresse antes de ir a tribunal.
Medman, acho que juntar no mesmo saco doenças infecciosas com outro tipo de doenças só complica a discussão. Eu percebo o q queres dizer, mas são níveis de evidência muito diferentes! O cidadão tem como dever promover a sua saúde! Não está AINDA provado que o tabagismo passivo aumente os risco de cancro do pulmão, bexiga!
CrisVSousa  

O comentário de CrisVSousa está certo na referência ao Código Penal. Na minha experiência de tratamento com tuberculosos, tive necessidade de recorrer N vezes às autoridades judiciais. Ao cabo de inúmeras insistências, se fez luz ou justiça. Inicialmente era preciso provar que o doente A, contagiou o B, o que como sabem é dificílimo. Depois de muitas reuniões e análise conjunta de trabalhos científicos, que provam o número de contagiados por 1 contagiante num ano +- 74) chegou o 1º caso de resolução a contento. Não sendo um BK+, mas em (mau) tratamento(?) há 4 anos, foi determinado que a GNR diáriamente levasse o doente ao CDP para toma observada da medicação. Como 1 ano depois foi possível provar a eficiência da atitude, aconteceram mais 2 casos de decisão judicial, 1 de tratamento obrigatório (como no caso anterior) e outro de internemento compulsivo, pois era um BK+ multirresistente.
O tratamento, não deve ser feito na "cela", mas no CDP ou no internamento. Os riscos de ter um tuberculoso na cadeia são imensos, no que toca a contágios, além de que as condições não são as aconselhadas, (nem mesmo no hospital cadeia).
Estes casos, que vos relatei sumáriamente, são muitíssimo importantes em ternos de juriprudência, pois, neste país, só havia um caso semelhante e ocorrido há cerca de 20 anos, quando as "liberdades" não eram tantas como nos anos seguintes.
É pois um, aliás três casos históricos, e como tal foram divulgados aos colegas de outros CDP, para exemplo de "pressão" judicial.  

tábêm ex-isto - obrigado pela "explicação"... ainda bem que já existem meios legais para obrigar efectivamente a tratamentos compulsivos.

CrisVSousa - olha que já existe evidência científica do efeito do fumo passivo no cancro do pulmão... ora vê a página 507 do teu Harrisons!  

Vocês podem não entender assim mas eu acho bastante mais grave obrigar alguém a tomar medicação contra sua vontade do que prende-lo. Ora eu não falei em trata-lo na cadeia. Disse que enquanto não aceitasse o tratamento (acho que tem esse direito) deveria ser isolado de possíveis vítimas. Se a pessoa aceitasse a medicação ( a larga maioria dos casos confrontados com a cadeia) era logo solta e tratada em local adequado consuante o caso.
Julgo que concordam que os esquizofrénicos que ouvem vozes que os mandam matar devem ser internados compulsivamente (não só para serem medicados mas para não poderem fazer mal a outros). O mesmo se passa pessoas que ainda não foram condenadas por nenhum crime, mas que um dos motivos porque podem apanhar "prisão preventiva" é por serem consideradas perigosas para a sociedade. Quanto ao facto de a lei permitir actuar depois de ele infectar alguém e conseguir-se provar que assim foi, parece-me manifestamente insuficiente. Continuo a achar que há essa lacuna.

Parece-me tb que a comparação com o perigo dos fumo passivo é desporporcional e é outro assunto, embora eu concorde que está provado o seu malefício (quando em locais fechados e de forma repetida e contínua ao longo de anos, nunca por episódios de contacto ocasional).
Concordo que a lei e a cultura deveriam defendar mais os direitos dos não fumadores. Tu sabes disso, mas não era essa a questão. Se me perguntas se deveriam ser presos a resposta é não, mas que deveriam ser multados nas situações em que é ilegal acho que sim. Há delitos que dão cadeia e outros dão só multa devido à diferente gravidade dos mesmos.

O risco profissional de HIV é rarissimo (nem sei se existe algum caso concreto comprovado em Portugal) e em relação à má alimentação a culpa é do indivíduo ou dos pais (não culpem os restaurantes, nomeadamente o McDonalds que disponibiliza informação nutricional sobre todos os seus produtos).  

Francisco, concordo plenamento com o isolamento de doentes "contagiosos" e com o tratamento compulsivo em casos de perigo para a saúde pública.
Acredito é que há problemas de saúde pública, enraizados a nível cultural (e que portanto não dependem da lei), mais graves do que a eventual recusa de um indivíduo infectado com tuberculose aceitar o tratamento.
E também acho que a nível global e epidemiológico, terá muito mais impacto o efeito do fumo passivo do que os casos de tuberculose contagiados a partir de quem recusa tratamento...
abraço  

Então já chegamos a acordo sobre a obrigaturiedade do tratamento (na minha perspectiva unicamente possível com a ameaça de cadeia se tal não for cumprido). Dizeres que não é este o principal problema de saúde pública em Portugal. OK concordo. Mas este é mais fácil de resolver e devemos começar por aqueles que se resolvem mais facilmente.  
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Uma lacuna na lei

Sabiam que não existe qualquer mecanismo legal para obrigar alguém que tem uma infecção facilmente transmissível (tuberculose por exemplo) a tratar-se? Pois é. Isso parece-me um verdadeiro contra-senso já que nestes casos o interesse da sociedade deveria se sobrepor ao da autonomia do indivíduo (se ele quiser morrer é lá com ele, mas que não ande a infectar outros). Especialmente no caso da tuberculose que é um verdadeiro problema de saúde pública.

Informaram-me que por vezes, quando o “infectado” tem um advogado pouco motivado (geralmente oficioso), se recorre à lei da saúde mental (claramente de forma abusiva) para o internar compulsivamente. O problema é que ninguém o interna durante toda a duração do tratamento (mínimo 6 meses no caso da tuberculose) e como tratamentos parciais ajudam a criar resistências tal atitude parece-me de eficácia duvidosa.

Como é possível se instituir a toma da medicação assistida nos centros responsáveis, se os doentes podem deixar de aparecer e ninguém pode fazer nada quanto a isso? Na minha opinião, doentes infectados com tuberculose que se recusassem a cumprir a medicação eram presos numa cela isolada até mudarem de opinião (tb servia curar espontaneamente ou morrer).

Ainda mais este desabafo: Afinal para que é que servem as doenças de declaração obrigatória? Para uns quantos fazerem currículo com umas estatísticas anuais em que ninguém acredita? Já para não falar do caso do HIV que passou em Janeiro por motivos políticos a ser de declaração obrigatória e ainda não há impressos para tal (parece que os que se fizeram eram ilegais???).


Comentários:

O blogger tava-se a passar... vê o comentário no texto acima!!!  

O blogger tava-se a passar... vê o comentário no texto acima!!!  

Eu tinha razão ... o blogger esteve passado !

Concordo com tudo , mas acho ( pois não tenho a certeza ) que é suposto em determinadas doenças os médicos informarem as comissões , não sei de quê?! Por exemplo, a variola , esta irradicada , mas imagine que aparece um caso , essa pessoa fica isolado , por uma questão de saude pública , certo ? ou não existe mecanismo nenhum que vos possa a obrigar o doente a permanecer isolado !?  

A questão é precisamente essa, não existe.  
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quinta-feira, março 10, 2005

Escarlatina

Ainda há dias o "anónimo" aqui falou acerca de escarlatina... Vi hoje a minha primeira... E o diagnóstico já vinha praticamente feito pelo médico do Centro de Saúde, veio ao hospital só para "confirmar" (não por mim, obviamente), uma vez que o quadro não era de livro.

Comentários:

.. E pode ser que seja a tua última. A escarlatina já quase despareceu, soa a coisa século passado, invoca uma infãncia já distante e as dolorosas injecções de penicilina.
E, já agora, porquê.... a escarlatina?  

Porquê??? Uma simples coincidência de há poucos dias se ter discutido nesta mensagem quando se (não) pode fazer um diagnóstico de escarlatina...

Abraço e obrigado pelas visitas.  

O link para a mensagem referida no comentário anterior é: http://culpadomedico.blogspot.com/2005/03/uma-simples-tosse.html  

LOL
O medman, obviamente um autor completamente identificado, ficou picado com esse tal malandro do "anónimo".....

Já agora pode-se corrigir, que viste um doente com escarlatina e não uma escarlatina, não é?

Abraço, bom estudo e lá nos veremos dia 7!  

não, caro anónimo, não fiquei "picado" com ninguém... mas não tenho outra forma de o (a) designar...  
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quarta-feira, março 09, 2005

Hoje não me apetece escrever...


Cidade Proibida - Pequim - China - Setembro 2002 Posted by Hello

Apetece-me só relembrar a Cidade da Tranquilidade Suprema, as paredes que mantiveram a China isolada do Mundo durante séculos, e que lhes permitiram ter uma visão muito particular da vida...

terça-feira, março 08, 2005

O meu 1º domicílio

Estava eu na já aqui falada pequena cidade do Alto Douro, a realizar o meu estágio em Medicina Comunitária no 6º ano do Curso de Medicina, quando realizei o meu 1º domicílio.
É prática habitual a visita dos médicos dos Centros de Saúde a alguns dos seus doentes (normalmente os incapacitados) ao seu domicílio. Porém, neste caso a visita processou-se com a Assistente Social do Centro de Saúde da área, visto que os problemas em questão eram de ordem social e não estritamente médica.

Chegamos a uma pequena aldeia, a cerca de 10 km da pequena cidade, a um ponto onde terminava a estrada propriamente dita. Era um largo, com um carvalho centenário e um pequeno fontanário. A partir daí, saiam duas pequenas "ruas" de terra batida. Depois de termos perguntado onde ficava a casa em questão, atrevemo-nos a meter o carro por uma dessas ruas. Chegamos à casa, onde nos esperava a Mãe, com os seus dois filhos, na melhor roupa que tinham porque "vinham cá os Srs. Doutores".
Logo à entrada, do lado direito da porta, tínhamos a "casa-de-banho" da família. Um penico e um "chuveiro" artesanal, que mais não era do que um regador com uma corda. Tudo isto, tapado por uma daquelas cortinas de casa-de-banho dos supermercados.
De seguida, passamos um tapume de contraplacado e desembocámos na "adega". Depressa o cheiro a vinho se sobrepôs ao cheiro dos lavabos e, dada a nossa falta de hábito, quase ficámos ébrios antes de termos completado 3 inspirações.
Convidaram-nos então a subir, onde tinham uma cozinha, 2 quartos e uma sala com televisão e computador "ligado à internet". Fosse a entrada directa para o "1º andar" e fora as divisórias em contraplacado, estávamos perante uma qualquer casa de uma qualquer família portuguesa de classe média.

Sentámo-nos então (nas melhores cadeiras que tinham), para começar a compreender porque é que o Márcio tinha mau aproveitamento escolar. Tinha 13 anos e estava na 3ª classe. Aparentemente era em tudo uma criança inteligente. Mexia no computador como ninguém lá em casa. Dava pontapés na gramática e não "sabia" fazer contas, mas dava sinais de um raciocínio vivo e inteligente.
E as coisas lá foram saindo a "saca-rolhas"... No inverno, quando estava muito frio, à saída pela adega, bebia uma malgazinha de vinho... ou duas, ou três. Que depois na escola não se conseguia concentrar. O pai (que trabalhava como "caixeiro-viajante"), só vinha a casa no fim-de-semana e como se "zangava" pelo "mau comportamento" do filho durante a semana, batia-lhe com uma vara que tinha guardada na cave. Ele, revoltava-se e "fugia" para o café, onde "tomava umas cervejas" e fumava uns cigarros com o dinheiro ganho a "jogar às cartas".

Depois de cerca de uma hora e meia "em conversa", viemos embora, mas a Assistente Social ia regressar na semana seguinte, para dar seguimento ao caso, depois de contactar a escola e as instituições de apoio da área. Nós já lá não estávamos, mas gostava de saber o que aconteceu ao Márcio.
Desta visita, o que mais me chocou foi a "naturalidade" com que encaravam toda esta situação e a passividade que demonstravam em não querer mudar de vida. O dinheiro não abundava, mas chegava perfeitamente para viverem numa casa com boas condições higiénicas. Mas ao que parece, as prioridades estavam um pouco "trocadas": preferiam ter um computador a uma casa-de-banho; preferiam "levar tareia" do pai, mas ter um tecto; não conseguiam impedir que a criança fosse ao café "beber umas cervejas".

É em situações como estas que sinto que ainda vivemos num país sub-desenvolvido... principalmente a nível de cultura!

Comentários:

E às tantas é daqueles a quem, para parar de chorar, em bébé, usaram um remédio ancestral (qual aero-om), também líquido, não rosa mas vermelho, aquecido e misturado com açúcar, a embeber um paninho atado com um fio para parecer uma mamadeira. Refiro-me ao maduro tinto da região, claro está.
As "SOPAS DE CAVALO CANSADO" do recém-nascido!  
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segunda-feira, março 07, 2005

Às segundas leituras (V)

Cá está então... Mais uma segunda, mais umas leituras.

Como não podia deixar de ser, uma palavra para o novo governo, aliás, 2 palavras. A primeira positiva, que é o facto de a maioria dos ministros não os conhecer de lado nenhum (só pode ser bom, já que quando aos conhecidos estamos conversados...), a segunda ao facto de entre os 16 ministros, 7 seres Prof. Universitários, o que pode ser negativo se olharmos para a falta de inovação e de gestão competente que vai pelo Ensino Superior (salvo algumas honrosas excepções, como por exemplo as Universidades do Porto e Minho). Ainda negativo é o facto de dos 7 Professores, virem os 7 de Universidades de Lisboa.
E pronto, ainda não tomou posse o governo e já assistimos a trapalhadas opiniões divergentes. O Primeiro Ministro (esse tal que tem um currículo académico obscuro) promete não aumentar os impostos; o Ministro das Finanças diz que "a ver vamos", mas é sempre uma possibilidade forte. E para ajudar, temos um Ministro dos Estrangeiros que comparou Bush a Hitler... É desta que saímos da NATO e que os Açores são invadidos pelos Americanos!!!

Uma palavra para a instituição do Cartão de Saúde Europeu, que facilita a mobilidade e a assistência em cuidados de saúde, para todos os cidadãos europeus.
Também na área da saúde, um exemplo de como quando os governantes querem, podem tomar decisões em tempo útil e desburocratizar o estado.

Duas notícias preocupantes que surgiram esta semana: em Portugal morre-se de frio, o que está intimamente dependente de más condições socio-económicas e a quantidade ainda "absurda" de jovens que fazem sexo sem protecção. A informação não chega... é preciso haver uma mudança cultural e deixar de encarar o sexo como um tabú, como algo que deve ficar confinado às quatro paredes de um casal. É preciso discutir o sexo na Praça Pública.

Uma palavra ainda para a anedota da semana...

E termino com uma referência para um Património Cultural que desconhecia, na cidade que me viu nascer e que todos já vimos várias vezes: as gnaisses da Foz. Temos que aprender a dar mais valor ao que temos!
Até para a semana!

Comentários:

Cartão de Saúde Europeu – uma nova forma do desgraçado formulário E-111. Porque é que só tem 1 ano de validade? Basicamente por cada viagem à Europa temos que o voltar a tirar. Para quando um cartão Europeu (não só da saúde mas tb BI, carta de condução, etc) e com validade de vários anos? Isso é que era um verdadeiro espaço europeu.

Quanto às pessoas sem abrigo é pena que só se lembrem deles nesta altura do ano. (In)felizmente a larguíssima maioria não morre de frio. O apoio deveria ser ao longo de todo o ano.

1/3 das adolescentes tomam a pílula abortiva. UM TERÇO. E a larga maioria destas está bem informada sobre métodos anticonceptivos  

Não é 1:3 das adolescentes: é 1:3 das adolescentes que foram inquiridas (que são 110, num total de 1075 mulheres de várias idades, ou seja cerca de 37. Não é que isto torne a situação menos grave, mas números, são números. De resto esta "pílula" é vendida sem a informação de que é potencialmente abortiva. A cultura vigente redefiniu gravidez como aquilo que acontece apenas depois da implantação do embrião. O que acontece nos dias anteriores da vida do embrião fica remetido para o limbo, ou para a cegonha... Uma cegonha pos-moderna obviamente :-P  
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domingo, março 06, 2005

Aqui vai disto

Antes de vos presentear com mais uma selecção de textos permitam-me fazer só dois comentários: este blog é um sucesso que avalio pelo crescente número de comentários que fazem aos posts (obrigado aos comentadores regulares e parabéns ao medman pelo sucesso da mudança de visual) e aviso que será a minha última crónica semanal, já que fico com a sensação que pelo facto de pôr vários textos ao mesmo tempo eles não têm a atenção que merecem.

Um obrigatório: Padre recusa comunhão a quem use métodos anticoncepcionais ou seja a favor do aborto. Devo dizer que as hierarquias máximas da Igreja em Portugal já discordaram publicamente da sua atitude. Se é verdade que os médicos não são nenhuns santos e como qualquer grupo de humanos apresentam uma grande variedade de comportamentos, o mesmo se passa com os padres. Será que este padre pode ser processado?

Cientista portuguesa ganha prémio internacional. Um reconhecimento para levantar a auto-estima.

Mais um caso do jornalismo português sobre temas médicos. Embora neste caso os resultados e objectivos da reportagem sejam bons, o métudo é muito questionável. Espero que não pensem que tenho algo contra os jornalistas. Fazem um trabalho fundamental e muitas vezes em condições muito difíceis. Mas tal como os médicos e os padres há de várias "categorias" e todos têm piores momentos. Descobri aqui.

Um conjunto de casos reais reunidos no mesmo blog que mostram o estado da justiça. Realmente impressionante. Este, este e este (foi o
Sr. juiz Conselheiro Nunes da Cruz que foi nomeado para a Presidência do S.T.J., mas aqui o mais interessante são os exemplos).

Comentários muito interessantes. Gostei principalmente do 3º.

Onde se licenciou José Sócrates? Que segredos esconde a sua formação? Vejam aqui. Teoria da conspiração ou verdade revelada. A investigação parece credível. Eu descobri aqui

Um texto de há 2 anos do novo ministro dos negócios estrangeiro. Eu subscrevo. A questão do retrato é ridícula. O que fizeram ao do Manuel Monteiro? E o do Lucas Pires? Eu aconselhava o pessoal do CDS a preocupar-se mais com o próximo presidente do que a excomungar os anteriores renunciando à sua própria história. E o pessoal do PSD a criticar que um ex-presidente do CDS aceite integrar um governo do PS; não devem saber de que partido o Durão já foi militante!

Não é que concorde mas está engraçado!

Comentários:

Este texto dá direito a muitos comentários

1 não vou comentar o Padre , o senhor deve querer a paroquia toda de barriga e ainda não ouviu faalr de DST e HIV! enfim broncos!

Depois a Igreja queixa-se que o rebanho foi pregar para outra capelinha , Mas o cardeal , teve a decencia de não cementar , e ja agora , como é que o sr padre vao saber se as meninas e senhoras tomam pilula ou usam DIU , vai examina-las hemmm ! aiaiai mentes preservas ...


2 Quanto ao Socrates , de engenharia não faço a minima o que ele fez , mas que andou no ISCTE A fazer um MBA em gestão andou !!!  

Esta semana esmeraste-te...
É pena que seja o último, mas compreendo-te perfeitamente. Pela minha parte não vou acabar com o "às segundas leituras", mas vou torná-lo mais curto...  

em relação ao padre um jornalista fez-lhe a mesma pergunta. Ele que bastava olhar para a pessoa!!!  

Não acredito ...
Acho que voiu lá a missa , depois conto o que ele descobriu ou se se recusou a dar-me a comunhão ...
Depois conto ...  

Shniff...Shnif... Não... :(
a última não... A menos que prometas que deixas os textos em 10 ou 11 posts... :)
Beijinhos, Xico.  
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Outra Beatriz

O caso contado pelo medman fez-me lembrar uma outra Beatriz que conheci quando passei na pediatria. Tinha cerca de 15 meses e tinha nascido com uma delecção parcial do cromossoma 15, coartação da aorta (a aorta era demasiado estreita), comunicação intra-ventricular (havia um "buraco" entre os dois ventriculos) já corrigida e outras malformações minor. Quando a conheci, já tinha tido sépsis (infecção generalizada) por fungos (algo muito raro e grave) e bronquiolites (infecções nos bronquíolos) de repetição.

A 1ª vez que a vi foi na urgência. Olhava-se para ela e via-se pelo fácies (aspecto da cara) que ela era especial. Era um pouco semelhante às crianças com trissomia 21 (tb conhecida como mongolismo) mas de certa forma diferente. Além disso vinha muito pálida. Os pulmões pareciam uma festa de sibilos e roncos, no RX não havia nenhuma área do pulmão com características normais. Eu sinceramente receei por ela e fiquei desamparado já que me apercebi rapidamente que os meus conhecimentos eram manifestamente insuficientes para a situação. Foi a “minha” primeira criança muito grave. Apesar disso e com orientação dos pediatras da equipa continuei a ser eu a “cuidar” dela. Afinal era só uma bronquiolite (que no caso dela se manifestava de forma muito mais grave do que é habitual). Ela foi internada na minha equipa e tive oportunidade de conhecer melhor a sua situação. Desde que a Beatriz nasceu que a mãe deixou de trabalhar para cuidar dela. Durante os primeiros 10 meses de vida a Beatriz passou mais tempo no hospital que em casa. Quando estava em casa precisava de cuidados de saúde especializados regulares (nalguns dos quais a mãe se tornou perita). Ultimamente estava a ser apoiada várias vezes por semana por enfermeiras, especialistas da locomoção e da fala para além das consultas regulares com o pediatra. Nunca vi o pai, nunca perguntei.

O internamento foi prolongado (quase 1 mês) mas correu bem e ela teve alta com muito melhor aspecto e com muito mais vivacidade. Não parecia a mesma. Durante todo esse tempo a mãe ficou com ela, dormia num cadeirão ao lado da sua cama e quando não estava a ajudar o pessoal de saúde a cuidar dela, estava a tentar mantê-la ocupada e estimula-la com jogos e brincadeiras. Nunca a vi desanimar. A Beatriz retribuía: com sorrisos e abraços.

Voltei a ver a mãe passado cerca de dos meses no refeitório do hospital e falei com ela: a Beatriz tinha tido outra crise de bronquiolite. Passados uns dias fui visitá-la. Tinha crescido, estava mais alta, mais autónoma. Infelizmente, as diversas limitações de estar internada faziam-na sofrer mais que no 1º internamento. Brinquei um pouco com ela e conversei um pouco com a mãe. Passados uns dias teve alta e nunca mais a vi.

Espero que tudo te corra bem Beatriz e que consigas ser feliz.


Comentários:

;-) para si !  
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O Frio...


...faz crescer coisas tão bonitas! Posted by Hello

Comentários:

Realmente...muito bonitas :)  

Uma amendoeira em flor ... a neve algarvia !!!

Bom gosto !  

Olá, medman...
Mais uma coisa bonita que achaste no Douro...
Medwoman  

Que bonito... o amor é lindo!
Beijinho Medwoman ***  

Olá, Betadine...
Beijinho. ***
Medwoman  
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sábado, março 05, 2005

A medicina humanista

"Hoje em dia quando um doente entra no consultório, a primeira coisa que faz é mostrar os imensos exames e radiografias que traz na mão. E o mais estranho é que se lhe peço para me falar de como se sente, do que tem, até fica surpreendido"

João Lobo Antunes in JN

Mas é esta a Medicina que muitos (doentes) querem. Na minha última urgência, dizia-me uma mãe: "Ó dôtore, parece impossível! Já vim 5 vezes à Urgência com a criança e ainda não lhe fizeram uma chapa". Não queria saber do exame físico, do que a levava lá. Queria que a criança fizesse "uma chapa". Lá lhe tentei explicar que os exames de diagnóstico, principalmente nas crianças, só devem ser feitos quando realmente necessários. Que têm problemas, que custam dinheiro e que muitas vezes não trazem informação nova. A criança, coitada, acabou por levar com umas análises, porque a mãe insistia que tinha febre (curiosamente nunca teve, durante as para aí 8 horas que esteve no SU). Como estávamos à espera, as análises eram normais.

Mas voltando ao tema... Hoje em dia, bom médico é aquele que pede muitos exames. E quanto mais complicados melhor. De que interessa fazer um exame neurológico completíssimo, se a D. Joaquina quer é fazer "um taco à cabeça". De que interessa colher uma história clínica completa, se o Sr. Fernando quer é fazer "umas análises gerais".

É cada vez mais difícil ser um médico humanista. Ouvir, examinar, aconselhar, apoiar. São coisas cada vez mais difíceis, cuja dificuldade aumenta em relação directa com os avanços técnicos da medicina. Os médicos, cada vez mais são (e têm de ser, na minha opinião), dividos em dois grupos. Não é os médicos de primeira e os de segunda, mas os médicos de cuidados primários, que conhecem o doente a fundo; que têm de ter tempo para os "seus" doentes; que conhecem o contexto familiar e social dos indivíduos; que ouvem e apoiam. E os outros... Os técnicos diferenciados. Os que executam as técnicas altamente diferenciadas; os que tratam de doenças específicas; os que se especializam em alguns dos sistemas desse "universo" que é o ser humano. São os médicos que tratam doentes e os médicos que tratam doenças...

E a escolha, está também nas mãos da sociedade. Se querem continuar a descredibilizar os cuidados de saúde primários, em detrimento dos "cuidados hospitalares". Se querem estabelecer uma ligação ao "seu" médico de família, ou recorrer de forma desordenada e desconexa às urgências hospitalares; se preferem tratar dos seus familiares doentes em casa ou depositá-los numa enfermaria de um hospital; se querem continuar a ter hospitais desumanizados, com enfermarias colectivas, burocráticos e centralizados ou centros de excelência, mais pequenos, com privacidade e pessoal dedicado; se querem continuar a "explorar" os erros médicos, forçando uma medicina defensiva, baseada no confronto e nos meios auxiliares de diagnóstico ou se por outro lado preferem uma medicina de "responsabilidade partilhada", baseada na confiança e no humanismo.

Se o humanismo, por parte dos médico, obriga a ver o doente como um todo, a perceber o contexto da doença e do seu impacto na vida do indivíduo, em compreender e ajudar; ao doente obriga a confiar e respeitar o seu médico, a aceitar que nem todos os problemas têm resolução (pelo menos em tempo útil), que o "seu" médico tem mais doentes, mas acima de tudo que o seu médico também é Homem, também tem dias bons, tem dias maus, tem emoções, família, erros, alegrias e tristezas, amigos, sofrimento, doenças, dores, mágoas, mau-feitio, férias, luxúria, contas a pagar, fins-de-semana, horário de trabalho, paixões, clube de futebol, partido político, ambições, cansaço...

O dia chegará em que os médicos serão funcionários, operadores de um computador, em que se limitarão a pôr os dados de um lado e a recolher a terapêutica do outro. E os humanistas, que ouvem, vêem e tratam os doente passarão a ser os curandeiros do futuro! Ou talvez não...

Comentários:

Como disse o mesmo Prof Manuel Antunes, em Setembro de 2004, no Congresso Nacional de Medicina Familiar:
-"… a tecnologia aumentou o poder do médico, pela objectivação da doença, mas empobreceu a face humana da clínica, subtraindo até o valor terapêutico do gesto mais ancestral da cura, que era o acto de tocar"
-"… a visão ética corre o risco de se tornar um frio exercício de racionalidade, indiferente à face humana do sofrimento."
-"… a humanidade da profissão está ferida"
-"… é cada vez mais arriscado ser médico, por razões intrínsecas e extrínsecas ao próprio saber médico"
-"… mas tais razões justificam que os médicos se tenham tornado mais tímidos, mais cépticos, mais desiludidos…."?

MUITO BOA REFLEXÃO A TUA - COMEÇO A ACREDITAR QUE A NOVA GERAÇÃO VAI FAZER VOLTAR A DIGNIDADE À PROFISSÃO  

Mas existem sempre uns pobres de espirito , que andaram pelos EUA e acham que se tocam , levam com um processo ...  

como doente (isto fica um bocado mal dito assim, mas sempre é melhor do que cliente) prefiro poder falar e estar suficientemente à vontade para contar o que é preciso, rir, chorar, etc, fazer perguntas ridículas. Claro que a competência técnica é essencial, mas se não se pode conversar com a pessoa que nos trata, que zela pela nossa saúde, então estamos perdidos.
muitas vezes é preciso admiti-lo são também os médicos que não conseguem conversar, muitas vezes nem por culpa deles...
tudo isto faz-me lembrar a árvore da vida, uma filosofia defendida por Mandela e praticada no Parlamento do Mali: a conversa é a coisa mais íntima que existe. Nunca devemos desqualificar os outros. Devemos olhá-los nos olhos. Devemos promover a discussão (o consenso apaga as diferenças). São ou não são bons princípios para o relacionamento com os outros? Nem sempre conseguimos segui-los (por medo da intimidade, da timidez, etc) mas eu pelo menos tento lembrar-me deles e fazer-lhes justiça.
é só uma ideia para ficar a magicar na cabeça dos doutores...  

Na saúde é necessária uma abordagem global sem ignorar os elementos e sem negligenciar as interacções entre os elementos (Walter Hesbeen): É "ver uma folha em toda a sua clareza, sem perder de vista a sua relação com a árvore".  

A saúde é uma área política onde pontificam o Estado e as empresas. O Estado e as empresas precisam de promover o consumo: o Estado, para convencer os cidadãos de que está a dar-lhes qualquer coisa senão eles não vootam...), as empresas, para serem rentáveis e não falirem.
Como a maioria das pessoas são (felizmente) saudáveis, o consumo não se pode (numa óptica pragmática) sustentar apenas com os doentes, uma minoria. Portanto a atitude predominante (não necessariamente consciente ou deliberada) será a de promover a relação da maioria (os saudáveis)com as "coisas" (exames, máquinas, medicamentos, cirurgias) e não com as pessoas (médicos e técnicos de saúde). No caso dos médicos de família a situação é ainda mais complexa porque eles tendem - como é próprio dos cuidados de saúde primários em todo o mundo - a promover a autonomia das pessoas, ou seja, a despromover o consumo...
QED (digo eu) ;-)  

Tens a certeza "Também Ex-isto!. Pelo que tenho podido apreciar, não: essa nova geração de que falas está cada vez mais agarrada, ao breve olhar superficial, ao palpite que pode ser certeiro,aos exames que vamos lá-ver-se-mostram-o-que-queremos, e ao tratamento de tipo ou-vai-ou-racha.
Porque, apesar do que aqui se lê com agrado, uma andorinha não faza primavera.  

Gostei do que li nesse texto. Apesar do texto me parecer heterogênio.Pois há trechos com os quais eu concordei plenamente, como por exemplo a definição de bom médico como aquele que pergunta, escuta, EXPLICA,e toca(eu sempre esperei algumas dessas qualidades de um médico, raramente eu encontrei).E há trechos em que a arrogância e prepotência dos médicos vem a tona(assim me pareceu), por exemplo quando se tenta atribuir a mãe da criança a culpa de um problema macro-estrutural. E a ação do médica tem que ser a de tentar esclarecer, mesmo que se tenta que explicar de maneiras diferentes.
De maneira geral o problema descrito tem relação com o modo como a comunidade medica sempre se relacionou com o restante da sociedade, de maneira distante e não abrindo o dialogo;e com a mecânização do atendimento medico imposto pelos planos de saúde a fim de diminuir custos.
Portanto a sociedade ocupa, infelizmente , o papel de agente dos efeitos,ficando longe dos debates para solução desta questão.  

Gostei muito desse texto, e conheci seu Blog pelo vestibular de medicina, do ano de 2008, da universidade Anhembi Morumbi, muito legal, e eu gostaria também de umas dicas do Sr.s, porque eu quero me formar em medicina, e ainda estou no 2º ano do ensino médio/técnico de gestão comercial.
grato Lucas Matheus,
Feira, BA  
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sexta-feira, março 04, 2005

Malformações

O Meta tem 3 meses. Nasceu na Guiné, filho de pai e mãe saudáveis.
Logo à nascença detectaram que tinha algo de anormal.
Enviaram-no para Portugal, para ser tratado: o ânus não comunicava com o intestino e o duodeno não comunicava com o estômago. Isto, além de outras malformações mais pequenas.
Já corrigiu a parte do duodeno, que agora comunica com o estômago e foi colocada uma colostomia (ligação do cólon, directamente ao exterior). Já se pode alimentar. A segunda intervenção cirúrgica já esteve marcada por duas vezes. Adiada das duas, porque teve infecções respiratórias.
Finalmente, a cirurgia marcada para a próxima semana. Ontem foi internado com uma pneumonia... Vai ter que esperar...

A Beatriz tem 5 meses. Nasceu com uma malformação cardíaca (além de outras "pequenas" alterações - traqueostomizada, malformações do sistema nervoso). Quando se conseguiu detectar ainda durante a gravidez, já era tarde de mais. Nasceu e tem uma mãe extremosa. Logo nos primeiros dias de vida, efectuou o primeiro passo para a correcção da sua Tetralogia de Fallot. Colocou uma ligação entre a artéria pulmonar e a artéria aorta. Tem uma doença em que mistura o sangue venoso, com o sangue arterial e por isso, tem sempre uma coloração azulada.
Está internada com uma bronquiolite e pequenina, agarra com força os tubos da traqueostomia.
Quando acabar de corrigir as alterações cardíacas, o seu prognóstico vai depender das alterações funcionais das malformações do sistema nervoso...

Comentários:

mas a culpa não é do médico ...pelo menos nestas::))) mas que há cada uma::))  

É por isso que não se passa um dia sem eu dar graças por ter uma filha saudável. Espero que esses bebés sejam capazes de vencer as malformações.  

A vida por vezes é tramada ... acho que por vezes o que me impressiona , é a vontade e a força de seres tão pequeninos de vencerem ... uma força para eles , ja que me sinto completamente impontenete para poder fazer algo  
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quinta-feira, março 03, 2005

Então, porque é que está triste ?

Às vezes há perguntas que fazemos durante uma consulta que não sabemos o que podem originar. Estava eu a colaborar na inspecção de saúde de uma senhora de 70 anos que a necessitava para renovar a carta de condução quando me parecendo algo abatida lhe pergunto:
- Então, porque é que está triste?
- Ai Sr. Doutore. É que a minha filha teve muito azar na vida....
- Então porquê?
- Veja lá que se casou com um homem que passado 5 meses se divorciou porque era homossexual.

Comentários:

Aproveito para manifestar o meu profundo desacordo em relação ao casamento de homossexuais... com pessoas do sexo oposto...  

Desculpem esta pergunta sádica: e de quem foi a "culpa"? Tantas respostas possíveis....  

Ora bolas...  

Está por provar que tenha casado... Apenas cumpriu o ritual formal (que até pode ser muito informal)do casamento. Muitos "divórcios" actuais não o são porque simplesmente não houve casamento: o casamento é um contrato cuja validade depende de regras objectivas. Se não as cumpriram, ainda que por mera ignorancia, *de facto* não houve casamento.  

O casamento depois de celebrado , leva ao cumprimento de obrigações e deveres !

Também tem de existir a sua consumação e só esta , provada é que pode levar a anulação!

Nesta situação houve um engano de algume , que escondia a sua verdadeira conduta sexual e só houve uma resolução do casamento , ou porque foi apanhado , ou porque assumio, isso não sabemos , mas não deve ser muito bom , para a dita rapariga certo !
Mas como esses ha muitos esta provado estatisticamente que a maioria dos homosexuias , são casados , tem dois filhos em média e passeiam em familia durante o fim de semana , não fazem noitadas e , ninguem dá por nada ...
Tal como os infies que aproveitam a hora de almoço para as escapadinhas ... eles tb se apanham uns aos outros nos intervalos ...  

É... isto há perguntas que às vezes é melhor não fazer!!!

Quanto ao caso, é triste, mas ainda bem que se separaram ao fim de 5 meses. Seria bem pior continuarem a viver uma mentira, ou separarem-se ao fim de 5 anos, ou 10...

Já agora, o senhor seria homossexual ou bissexual?  

o drama que se pode ser escondido e descoberto por uma tão simples pergunta....  

Para bem da filha da senhora, espero que ele fosse bissexual. Acho eu...  

Eu espero que não ...
Apesar de estar provado que a sida esta a ser transmitida pelos hetero, para as mulheres , nunca se deve confiar num , bi!
Ou se é uma coisa ou outra , isso faz me confusão ...  

O que me lixa é ter que dizer qualquer coisa a seguir... As opções resumem-se a:

-"Pois é... Realmente... Enfim..."
-"Então e o resto, o seu marido, a sua casa?..." (a que provavelmente se segue um churrilho de razões para a senhora estar deprimida, e voltamos à opção 1)
-".......... ahm..."  
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quarta-feira, março 02, 2005

Uma simples tosse...

MPG, 14 anos.

Há 3 semanas que andava com tosse e febrícula. Centro de saúde - antibiótico e anti-tússico. Não melhora. Médico "da privada" - "Esses medicamentos não prestam!". Novo antibiótico e um outro anti-tússico. Continua a não melhorar. Urgência hospitalar. É pela 1ª vez auscultado.

Diminuição dos sons pulmonares. Rx tórax: pneumonia com derrame pleural. Análises com marcadores de infecção muito elevados. Colocação de dreno torácico - drenagem de pús em grande quantidade. Várias lavagens, sem expansão do pulmão e continua com pús. TAC torácico: pleura com fibrose e sequestro de uma parte do pulmão. Cirurgia de libertação. Corre bem, não precisa de retirar parte do pulmão. Três dias em cuidados intensivos. Ao quarto dia já pode andar. Inicia um processo de recuperação com fisioterapia. O futebol (o que mais gostava de fazer) vai ter que esperar...

Muitas vezes penso se estaremos livres de cometer estes erros. Um desleixo perante um queixa tão banal como uma tosse, pode ter resultados trágicos. Talvez o antibiótico não fosse o mais indicado, talvez pudesse ter tratado a pneumonia 2 semanas mais cedo. Talvez não chegasse a ser operado. Talvez..., mas o sofrimento das últimas 2 semanas, já ninguém lho tira.

Resta-nos aprender com os erros do outros, esperemos que eles façam o mesmo!

Comentários:

O seu post é muito interessante, pois tenho reparado , que raramente um médico
ausculta! Já tinha pensado se não seriam modernices , acho que não talvez comodismo ! Eu depois de uma manchita , deixei de fumar , agora um miúdo de 14 anos ! mais grave foi o meu filho em Sta Maria 3 meses , estas constipado , era fim de semana , estava nervosa e levei ao pediatra , Pneumonia , logo detectada na auscultação , na urgência , nem com o RX na mão , deviam estar a precisar de óculos !
Gosto muito do seu blog , da forma como escreve , dos seus receios , enfim deve ser um profissional em todos os sentidos ...  

"… a tecnologia aumentou o poder do médico, pela objectivação da doença,
mas empobreceu a face humana da clínica, subtraindo até o valor terapêutico do gesto mais ancestral da cura, que era o acto de tocar"(Congresso Nacional de Medicina Familiar – Viseu – Setembro de 2004 -Prof. Lobo Antunes)  

É muito fácil diagnosticar uma escarlatina quando aparece o respectivo exantema. Não seria tão fácil fazer o mesmo diagnóstico um dia (ou mais) antes quando apenas existia febre (e mais nada)... Agora o médico que viu o exantema, não vai dizer que o anterior colega era cego, pois não? Acho que críticas destas têm de ser feitas com mais responsabilidade. Senão qual vai ser a difeneça entre esta crítica e a TVI?
Abraço  

Parece-me que neste caso não se trata de criticar as atitudes dos médicos anteriores, mas sim chamar a atenção para o facto de que a auscultação, um acto tão básico que deve ser sempre feito em qualquer exame objectivo, foi completamente posto de lado, tendo-se optado directamente por uma medicação...

Uma estudante de medicina  

Não era uma critica , mas tem de admitir que existem médicos e médicos ...

Acho que a muitos falta sensibilidade e bom senso , e garanto-lhe que sei do que estou a falar !

Tive um acidente enorme , se não fosse o
Dr Amntonio Trindade entre outros , as estas horas sabe Deus como teria ficado com o me que me queriam fazer ...

Mais não digo , acho que o objectivo aqui é aprender , trocar experiências de ambos os lados . a Critica só se for constructiva ...  

Entretanto os jornais publicitam que se usam antibióticos a mais... (Ah, e agora, também antidepressivos a mais.)  

J'agora, só mais uma achega: o último médico a ver o doente é sempre o melhor...  

Acho que há vários aspectos a considerar:
Parece-me claro e consensual que o médico do CS e da privada não fizeram o que deviam já que não auscultaram. No entanto ambos medicaram com antibióticos (não sabemos quais). Ora o auscultar serve fundamentalmente para contribuir para a decisão se é pneumonia ou não (ou seja, serve para decidir se vale a pena receitar antibióticos ou não e não serve para decidir qual o antibiótico). O que seria grave era os médicos não terem auscultado e não terem medicado com antibióticos.
Portanto parece-me que na prática o que falhou foi uma antibioterapia adequada (tipo de antibiótico ou não ter feito um regime completo até ao fim) ou nada falhou e o MPG teve o "azar" de estar infectado com um agente resistente aos antibióticos indicados como de 1º linha para as pneumonias da comunidade.
Pela história fico com a impressão é que ele recorre demasiado tarde ao SU.  

Para mim não é assim tão claro e consensual que os médicos anteriores não tenham auscultado o rapaz. E é justamente aí que eu critico. Diagnosticar e tratar qualquer infecção respiratória sem auscultar o doente está errado. É óbvio que a auscultação faz parte de qualquer exame físico de qualidade. Mas acreditar piamente nalguém que diz que os dois médicos anteriores "não auscultaram", ou melhor ainda "nem olharam bem para ele" e pôr num blog, assinando como médico, não é uma atitude responsável. E ninguém ganha com isso, nem médicos nem doentes. As informações que nos dão são subjectivas e voçês sabem isso.  

Caro anónimo,

Antes de mais, obrigado pela participação e pela discussão (da qual nasce sempre a luz...).
Quanto à minha mensagem, ao contrário das notícias da TVI, foi colocada apenas com o intuito de alertar todos (profissionais e "utentes"), para as especificidades do acto médico, em que uma simples distracção, pode ter resultados complicados. Não pretendia apontar culpados, nem fazer julgamentos na praça pública. Pretendia (e pretende) alertar essencialmente para duas coisas:
1. A necessidade de utilizar os "velhos" métodos da Medicina.
2. A necessidade de ponderar e utilizar os antibióticos com racionalidade.

Não pretendo fazer juízos de valor, sobre se os médicos que o viram antes eram bons ou maus. Acho que erraram, como eu sei que erro todos os dias. Espero poder ter aprendido com este erro que eles fizeram. Propositadamente não coloquei as palavras "negligência" ou "dolo", porque não conheço os colegas, nem sei em que circunstâncias observaram esta criança.

Também não acredito piamente em tudo o que me dizem. Mas neste caso, estou profundamente convencido que a criança (e os pais), estão a contar a verdade, ao dizerem que não foi auscultada, até porque um empiema daquele tamanho não surge da noite para o dia. Mais, foi-lhe dito que tinha uma gripe e prescrito o antibiótico, que iria manter febre durante uns dias e que isso era normal. Podia ser, mas neste caso, infelizmente não era.

Continuo a achar que foi cometido um erro médico (aliás, ainda recentemente foi julgado um processo disciplinar na Ordem, por um caso semelhante - diagnóstico de Pneumonia, sem ter sido feito o exame físico, mesmo com o diagnóstico e o tratamento correctos) ao não ter sido dada a atenção devida ao exame físico e a terem sido prescritos antibióticos para uma "gripe", que ajudaram a mascarar o quadro e a seleccionar agentes resistentes.
Coloco aqui a mensagem, para que todos possam ter mais atenção a este caso. Não é para julgar ninguém, mas se há coisa que sou incapaz de fazer é defender a classe só pela classe.
Quero poder defender os meus colegas, mas porque eles praticaram boa medicina, não porque "por acaso" até acertaram no diagnóstico. E espero que todos possam aprender com os erros...

Abraço  

Bingo , os anti-gripais , explique lá o que é mascarar a gripe e as consequências , já esta explicado no post anterior eu sei , o meu médico, um dia , estava eu constipada , uma grande carraspana , que fui deixando andar , até a infecção bronquica , até ter pieira, mas aqui , mia culpa ...
Qd me perguntou o que tinha tomado , repondi
anti-gripais
ouvi um berro , e ameçou bater-me ( a brincar)

Nunca mais tomei e acho que não deviam ser medicamentos de venda livre  

Sobre a medicina tradicional , neste caso a mais humana , hoje tive um ataque de riso , ao ler a entrevista do Prof Lobo Antunes ; viram... é que simpatico ele não tem nada ....  

Inflizmente tenho que concordar um pouco com o anónimo e o medman. Os doentes, pelos mais variados motivos, muitas vezes não dizem a verdade do que se passou ou (o que não se aplica neste caso)não se apreceberam bem do que aconteceu numa consulta anterior. Isto é frequentíssimo.
Inflizmente tb é frequentíssimo haver colegas que não fazem o mínimo exame físico e que medicam o que julgam ser gripes com antibióticosmas.
Os médicos tal como em todas as outras profissões, têm melhores e "menos bons" representantes e todos nós temos momentos melhores e piores. Não há que ter medo de identifica-los (momentos e médicos) e procurar que os erros não se repitam.

Gostava tb de chamar a atenção para o caso reperido pelo medman do processo ao médico por não ter auscultado um doente com aparente pneumonia. O processo em si tem dois pormenores curiosos: - o processo foi instaurado pelos familiares do doente após ele ter morrido por enfarte do miocárdio julgando que a atitude do médico contribuiu para esse desenlace (o que me parece muito pouco provável); - os colégios da especialidade (pneumonologia e medicina interna) não cordaram entre si se o tratamento que ele tinha dado (3 doses de azitromicina) se era ou não adequado  
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terça-feira, março 01, 2005

Roupa nova

Agora que chegaram ao fim os saldos e que iniciamos um novo mês (o do regresso da Primavera), este blog vai mudar a sua imagem.

Espero que gostem do novo aspecto e que continuem a participar, cada vez mais activamente!

Comentários:

E como foi para melhor... parabéns  

Eu gosto. Boa medman  

Parabéns. Melhorou Muito.  

Reparei logo na diferença , gsotei bastante !  

Está muito interessante este novo visual! Gostei!
:)  

Muito elegante, sim senhor!
Compraste nos saldos? ;)  

Está bonito, sim! Como o blog em si.  
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