domingo, março 20, 2005

Venda livre de "medicamentos de venda livre"...

Pois é... e foi este o tema da semana, em que tomou posse o novo governo!!! (afinal está-me a sair inteligente este sócrates... conseguiu desviar as atenções dos problemas económicos, das contradições do governo, dos recuos do MNE, das trapalhadas do cenoura, do aumento de impostos...)

Rapidamente os farmacêuticos se opuseram a esta medida. Considerando que seria um estímulo ao consumo de medicamentos. Que nas farmácias os clientes são aconselhados, que o farmacêutico até sabe que outros medicamentos a pessoa toma, que alerta para os perigos de utilização dos medicamentos, etc... A realidade... nunca em nehuma farmácia, me aconselharam o que quer que fosse acerca de medicamentos de venda livre; nunca me fizeram nenhuma pergunta. Mais, várias vezes me perguntaram se tinha a certeza que não precisava de mais nada ("aconselhando-me" a toma de antitússicos, vitaminas, etc...)

Mas... vamos por partes. Que implicações tem a venda livre de medicamentos de venda livre?
1. Passam a poder estar à venda em qualquer local.
2. O controlo técnico tem de estar assegurado por um farmacêutico.
3. Qualquer pessoa que queira o medicamento o pode comprar.

Actualmente,
1. Estão à venda apenas em farmácias.
2. O controlo técnico é feito por farmacêuticos, mas a venda, habitualmente é feita por um técnico de farmácia (que não tem formação de farmacologia, nem de farmácia)
3. Qualquer pessoa que se desloque à farmácia, pode comprar o medicamento.

O que muda? As farmácias deixam de ter o monopólio de venda de medicamentos!
Mas há riscos para a saúde pública? Há e podem ser por vários motivos...
1. O medicamento tem interacções ou efeitos laterais que podem ser nocivos. Não deveria ser medicamento de venda livre.
2. Pode estimular o consumo de medicamentos. Pode, mas actualmente qualquer pessoa compra a quantidade de medicamentos que quer... Talvez se os medicamentos fossem dispensados em doses unitárias (em vez de caixas de 60, o que só beneficia as farmácias e as companhias farmacêuticas), fosse possível diminuir o consumo de medicamentos.
3. Não está lá o técnico (ou o farmacêutico) que conhece a pessoa e sabe que medicamentos ela está a tomar. Pois... actualmente também não... Basta ser preciso um medicamento durante a noite e ter de recorrer a uma farmácia de serviço...

Sinceramente, sou completamente a favor da venda de medicamentos de venda livre fora das farmácias. Além de não encontrar nenhum problema nisso (o que por si só já era um bom motivo para o apoiar), encontro ainda uma grande vantagem... Há a certeza de que uma pessoa que sai de casa para comprar uma aspirina para a gripe, não vir do "supermercado" com um antibiótico cuja receita vai depois "cravar" a qualquer médico...

Se existem problemas associados ao uso do medicamento, a solução não é limitar a sua venda às farmácias, mas sim, transformá-lo em medicamento sujeito a receita médica. Se existem problemas associados à quantidade de medicamentos usados, e ao uso de medicamentos fora de prazo, a solução passa pela dispensa em doses unitárias. Se existem problemas associados a interacções medicamentosas, o problema passa pelo aumento da informação ao utente... O monopólio actualmente existente, é benéfico apenas ao limitado número de "donos de farmácias".

O que nos leva a outro assunto, que é a limitação da abertura de novas farmácias. Porque razão não pode qualquer pessoa abrir uma farmácia, desde que o seu controlo técnico seja assegurado por um farmacêutico? Se qualquer pessoa pode abrir um hospital privado, uma clínica médica, um laboratório de análises, um supermercado, um gabinete de advogados,uma empresa de transportes ou até mesmo um laboratório farmacêutico, porque razão o mesmo não acontece com as farmácias? (note-se que não tenho qualquer interesse pessoal no caso, porque o código deontológico da ordem dos médicos, proíbe expressamente a participação de médicos em qualquer negócio farmacêutico...).
Porque é que as farmácias se mantêm como o único monopólio de uma actividade em Portugal?

Voltando ao tema... Se os medicamentos são de "venda livre", que o sejam mesmo e não apenas de nome. E se são "sujeitos a receita médica", de uma vez por todas que o sejam mesmo... Lembro-me sempre da senhora que certo dia me chegou ao CS a pedir uma receita de 9 caixas de "ben-u-ron" que devia na farmácia (sim, o ben-u-ron é sujeito a receita médica)... 9 caixas??? É dose mais do que suficiente para poder matar alguém... e foi vendido livremente, numa farmácia, se calhar na farmácia de algum dos que agora "protestam" que "nas farmácias as pessoas têm aconselhamento quanto ao uso dos medicamentos"...

Resumindo... Sim à venda "livre" de medicamentos de venda livre.
Sim à restrição da quantidade de medicamentos de venda livre.
Sim à criminalização da venda de medicamentos sujeitos a receita médica, sem receita.
Sim à liberalização da abertura de farmácias.
Sim à dispensa de medicamentos em doses unitárias.

Comentários:

Concordo com tudo o que disseste. O paracetamol (e outros) são menos perigosos para a saúde pública que os hamburguers (e ninguém pensa em vendê-los num establecimento cujo proprietário seja um nutricionista) ou que os chamados "remédios naturais" (que causam bem mais hepatites e não têm qualquer controlo).

Em relação ao Ben-U-Ron e ao facto de ser sujeito a receita. Não percebo porque é que algumas caixas de 20 comprimidos de 500mg são sujeitas a receita médica ( Ben-U-Ron, Panasorbe e Pantadolor; sendo os dois primeiros comparticipados em 40%) e outras não (Paracetamol por exemplo, que tb não é comparticipado embora seja o mais barato dos 4).  

Completamente de acordo.  

Totalmente de acordo.  

Que bonito...`
É claro que isso implica que os domicílios são para se fazer...não basta telefonar e dizer: "Vá à farmácia e peça o antibiótico "Zigzug", sim, z-i-g-z-u-g".
E se calhar aquela coisa da medicação crónica mais agilizada é um problema a solucionar...
E para melhor controlo do nº de fármacos que cada utente consome /mês ter cada utente um cartão magnético com o registo obrigatório dos fámacos comprados, com respectiva data...Ai!! Bati com a cabeça...mas era giro.
Gostei, vou vir mais vezes a este blog. Parabéns!!
Molungu  

nada a apontar. totalmente de acordo.  

Bem dito!  

Bem dito!  

foi tão bom, que tive que repetir 2 vezes :)  

Até os técnicos de farmácia concordam: http://www.publico.clix.pt/shownews.asp?id=1218814&idCanal=91  

Afinal parece que vai mudar, para ficar tudo na mesma... Pôr um farmacêutico 24 horas por dia a vender os medicamentos de venda livre nos espaços comerciais???
Além de ser desprestigiante para os farmacêuticos (que têm coisas mais importantes com que se ocupar), é um insulto à capacidade dos portugueses... Então os portugueses são "capazes" para conduzir automóveis, mas são "incapazes" para comprar sozinhos um medicamento de venda livre...
E morrem todos os anos muito mais portugueses de acidente de viação do que de intoxicação por ibuprofeno... Ridículo... Só falta mesmo obrigar os stands de automóveis a ter um instrutor de condução a explicar o funcionamento e as regras de trânsito no momento de aquisição do veículo!!!

Como diria Shakespeare: Much ado about nothing!!!  
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