sábado, março 18, 2006

Algumas questões de ÉTICA

Começo com uma situação caricata que se passou durante esta semana numa das enfermarias do hospital de S. João. Será ético ter 20 alunos mais um professor a fazer uma história clínica a um só doente? (são as possibilidades que a faculdade tem, com o orçamento que tem e com a quantidade enorme de alunos que recebe)

Quem serás responsabilizado pelos voluntários (pagos!!!) que se encontram internados num ensaio dum novo medicamento? Será que todos os procedimentos foram seguidos?

Porque estava Milosevic a preso em Haia, enquanto há muitos como ele à solta? Não serão os ataques ao Iraque um atentado contra a humanidade? (aqui já não é só éticá, é necessário também alguma coerência)

Comentários:

As actuais "inovações" do H. S. João devem ser atentamente acompanhadas não só no âmbito do ensino, como no assistencial. Algumas medidas que vamos conhecendo (p.exº: o que sucedeu nos Serviços de Endrocrinologia e Dermatologia) sugerem uma "fúria" economicista, de mau preságio para uma instituição assistencial, formativa e de investigação.

Os "lancinantes" apelos da Administração do H. S. João a
mecenas, não quererão dizer nada?

Ou será:
- o desajustamento do projecto;
e/ou
- a "desresponsabilização" do
Min. da Saúde.

O HSJ é uma Entidade Pública Empresarial (EPE). O problema reside exactamente na palavra "empresarial".
Todos sabemos que um Hospital público não é, nem pode ser, uma empresa. Muito menos a comportar-se publicamente - recurso aos mecenas - como uma ONG.
Os actuais governantes e, subservientemente, as administrações nomeadas, vão preparando o terreno para a liquidação do SNS.
O HSJ é a ponta do iceberg.
Sem qualquer resquício de ÉTICA, mas com muita lógica "empresarial".  

Os ensaios clínicos têm, em minha opinião, regulamentação suficiente que protege os doentes e baliza os trabalho dos investigadores.
O problema é(são) a(s) dependência(s) da(s) instituição(ões) - no caso denunciado do HSJ - dos favores da indústria farmacêutica que os prove.
E, não só isso, a dependência dos médicos dessa mesma indústria.
Um bom caso para a ERS.  

"indústria farmacêutica que os prove"
queria dizer:
"indústria farmacêutica que os promove"  

"Os que continuam à solta apesar dos crimes contra a Humanidade"

É bom recordar que os EUA não subscreveram o cordo que criou o TPI.
Queriam continuar à solta...  

No meu tempo da faculdade, e durante todo o 4º ano, a cadeira de Patologia Cirurgica conseguiu a proeza de Juntar 2 turmas já de si enormes e colocar regularmente, aula após aula, 35 (TRINTA E CINCO) Alunos à volta de um doente acamado!  

Vai piorar.

É a logica daquilo que se apregoa aos 4 ventos:
"a luta contra o desperdício".
Ou, se quiser ser mais polido: a visão economicista do ensino médico e dos hospitais escolares.

Nesta lógica os doentes não contam e a qualidade do ensino, também não.

A moda é considerar tudo o que é serviço público um desperdício.

Até um dia considerarmos um desperdício de tempo eleger um governo, nos moldes que o fazemos hoje. Isto é, prometendo o céu na campanha e dando o inferno, uma vez conquistado o poder.  

E de quem é a culpa dos 20 estudantes à volta de um doente, é do pouco orçamento?!
Será que não há médicos suficientes no S. João para que haja menos menos estudantes apenas para um doente? É que falta de doentes certamente que não é! E será assim tão indispensável que os estudantes estejam em presença física? Não é possivel o professor fazer uma aula teórico-prática, em que disponibiliza dados suficientes para o estudante fazer a história clínica?!
É que muito sinceramente penso que não entram assim tantos alunos para medicina, essa parece-me uma falsa questão, convenientemente não discutida, já que se o problema é a falta de qualidade e ética cabe também aos professores arranjar maneiras de ultrapassar isso, afinal de contas se são professores não é apenas para terem o estatuto e receberem o ordenado, ou pelo menos não deveria ser!
Maria Raposo  
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