segunda-feira, janeiro 17, 2005

Diz a verdade para mim!

Era uma velhinha (penso que ainda é...) simpática. Entrou no hospital de urgência com uma colangite (infecção nas vias biliares). Febre alta, icterícia (ou seja, amarela que nem um canário) e dor no hipocôndrio direito (por baixo das costelas... na zona do fígado) - quadro típico de colangite. Tinha 87 anos, 40 dos quais passados no Brasil, de onde ainda tinha um ligeiro "sotaque". Além da sua angina de peito, era saudável. Estava muito assustada com o que lhe estava a acontecer.

Fez os exames necessário e descobriu-se que o seu problema era devido a ter "pedra na vesícula": uma das pedras tinha migrado e entupido na via biliar. Era uma doença de óptimo prognóstico. Fica internada para tratamento e inicia a avaliação pré-operatória. Durante o internamento fica colocada ao lado de outra velhinha, com um problema de saúde semelhante: uma colecistite - inflamação da vesícula biliar, mas sem infecção. Durante os dias de tratamento ficam grandes amigas. Ao fim de uma semana, estão perfeitamente bem, mas como se conseguiu vaga para as operar na segunda-feira seguinte, mantêm-se internadas. É-lhes dada a possibilidade de irem de fim-de-semana e voltarem na segunda-feira. Como ambas moravam sozinhas, resolvem ficar (as duas) para fazer companhia uma à outra.

Na segunda-feira, são operadas as duas. A mais simples, por via laparoscópica (através de uns tubos e uma câmara de vídeo colocados dentro da barriga). À "velhinha" é-lhe explicado que tem que se abrir a barriga, porque apesar de a "pedra" já ter sido expulsa, é preciso explorar o canal, para ver se não ficou lá mais nenhuma. Logo aí, concorda, mas fica algo desconfiada: "Doutor, diz para mim. Tenho alguma coisa de mal dentro de mim?" Digo-lhe que não, que aquele é o procedimento habitual, para não se preocupar que uns dias depois da operação fica tudo bem. É finalmente operada por via clássica (de barriga aberta), mas como existem algumas dúvidas durante a cirurgia, opta-se por colocar no canal biliar um dreno para o exterior.

Na manhã seguinte encontro as duas perfeitamente acordadas e sem dores. A "nossa velhinha" olha-me muito séria e diz: "Doutor, você mentiu para mim... Eu tenho alguma coisa de ruim. Diz a verdade para mim". Lá lhe explico o que se passou e que o dreno foi colocado por precaução. Que passados uns dias podia ir para casa e passadas cerca de 3 semanas podia vir tirar o dreno.
E assim foi. Passados 3 dias, tinham alta as duas (duas das doentes mais simpáticas com que contactei, por sinal. Gente simples, mas educada e interessada) risonhas e bem-dispostas. Trocaram números de telefone e prometeram-se visitas...

Passado cerca de uma semana, aparece-me no serviço preocupada. Que teve outra vez febre e dor no hipocôndrio. Fazemos uns exames e está tudo bem. Vai de novo para casa, com a indicação de voltar, se alguma coisa acontecer. Lá vai, não muito convencida. Mas não sem antes perguntar de novo: "Doutor, diz a verdade para mim. Tenho alguma coisa de mal?" Explico-lhe de novo que não, que por vezes são reacções que ocorrem aos drenos. O dreno, por sinal, está em bom estado e a drenar cada vez menos.

Às 3 semanas, volta. Tudo correu bem e quer saber se pode tirar o dreno. Opta-se por manter mais uma semana, visto que ainda drena um volume importante. Fica de novo desconfiada e diz: "Doutor: você está mentindo para mim... Eu tenho mas é alguma coisa má!" De novo é assegurada que não. Que está tudo a correr de uma forma normal. Programa-se novo internamento para a semana seguinte, para retirar o dreno.

Regresa na semana seguinte para retirar o dreno. É necessário fazer um novo exame, para saber se o canal está permeável e se se pode tirar o dreno em segurança. Marca-se o exame para o dia seguinte. Corre tudo bem, e durante o exame o Radiologista, perde algum tempo a explicar-nos as imagens que se vêem. Quando regressa ao internamento pergunta-me: "Doutor. Eu vi você a falar muito tempo acerca do meu exame. Tem alguma coisa de mal? Diz a verdade para mim". Desta vez não consigo conter um sorriso e asseguro-lhe mais uma vez que está tudo bem e que no dia seguinte pode tirar o dreno. E assim é. Retira no dia seguinte e mais um dia depois, tem alta definitivamente "como nova".

Despeço-me dela enternecido. Ao que lhe digo: "Adeus D. Alice. Desta vez é de vez...", ao que ela me responde: "Espero que sim doutor, mas eu venho fazer uma visita para você!"

Comentários:

Estava a ver que lhe iam acabar por descobrir mais alguma coisa e te fo****. Infelizmente os médicos não contam muitas vezes a verdade aos pacientes, nomeadamente no caso de neoplasias. Não a culpo por ser desconfiada. Teve sorte de ter sempre um bom médico "à mão" que a foi esclarecendo e sossegando.  

Não para te contradizer mas para te completar acrescento: felizmente ainda há médicos que, no interesse dos seus doentes, optam por não contar toda a verdade. Bem hajam!  

Essa do bom médico era para mim???
Eu também não a censuro por perguntar, até porque o fez sempre de uma forma correcta, mas não posso deixar de "sorrir" quando me lembro dessa incredulidade.  

Já agora, talvez não fosse má ideia ires rever o prognóstico da colangite...  

De facto, "óptimo prognóstico" é um bocado exagerado... Mea Culpa! Mas naquela doente em particular o prognóstico era bom...  
Enviar um comentário

«Inicial