quarta-feira, março 02, 2005

Uma simples tosse...

MPG, 14 anos.

Há 3 semanas que andava com tosse e febrícula. Centro de saúde - antibiótico e anti-tússico. Não melhora. Médico "da privada" - "Esses medicamentos não prestam!". Novo antibiótico e um outro anti-tússico. Continua a não melhorar. Urgência hospitalar. É pela 1ª vez auscultado.

Diminuição dos sons pulmonares. Rx tórax: pneumonia com derrame pleural. Análises com marcadores de infecção muito elevados. Colocação de dreno torácico - drenagem de pús em grande quantidade. Várias lavagens, sem expansão do pulmão e continua com pús. TAC torácico: pleura com fibrose e sequestro de uma parte do pulmão. Cirurgia de libertação. Corre bem, não precisa de retirar parte do pulmão. Três dias em cuidados intensivos. Ao quarto dia já pode andar. Inicia um processo de recuperação com fisioterapia. O futebol (o que mais gostava de fazer) vai ter que esperar...

Muitas vezes penso se estaremos livres de cometer estes erros. Um desleixo perante um queixa tão banal como uma tosse, pode ter resultados trágicos. Talvez o antibiótico não fosse o mais indicado, talvez pudesse ter tratado a pneumonia 2 semanas mais cedo. Talvez não chegasse a ser operado. Talvez..., mas o sofrimento das últimas 2 semanas, já ninguém lho tira.

Resta-nos aprender com os erros do outros, esperemos que eles façam o mesmo!

Comentários:

O seu post é muito interessante, pois tenho reparado , que raramente um médico
ausculta! Já tinha pensado se não seriam modernices , acho que não talvez comodismo ! Eu depois de uma manchita , deixei de fumar , agora um miúdo de 14 anos ! mais grave foi o meu filho em Sta Maria 3 meses , estas constipado , era fim de semana , estava nervosa e levei ao pediatra , Pneumonia , logo detectada na auscultação , na urgência , nem com o RX na mão , deviam estar a precisar de óculos !
Gosto muito do seu blog , da forma como escreve , dos seus receios , enfim deve ser um profissional em todos os sentidos ...  

"… a tecnologia aumentou o poder do médico, pela objectivação da doença,
mas empobreceu a face humana da clínica, subtraindo até o valor terapêutico do gesto mais ancestral da cura, que era o acto de tocar"(Congresso Nacional de Medicina Familiar – Viseu – Setembro de 2004 -Prof. Lobo Antunes)  

É muito fácil diagnosticar uma escarlatina quando aparece o respectivo exantema. Não seria tão fácil fazer o mesmo diagnóstico um dia (ou mais) antes quando apenas existia febre (e mais nada)... Agora o médico que viu o exantema, não vai dizer que o anterior colega era cego, pois não? Acho que críticas destas têm de ser feitas com mais responsabilidade. Senão qual vai ser a difeneça entre esta crítica e a TVI?
Abraço  

Parece-me que neste caso não se trata de criticar as atitudes dos médicos anteriores, mas sim chamar a atenção para o facto de que a auscultação, um acto tão básico que deve ser sempre feito em qualquer exame objectivo, foi completamente posto de lado, tendo-se optado directamente por uma medicação...

Uma estudante de medicina  

Não era uma critica , mas tem de admitir que existem médicos e médicos ...

Acho que a muitos falta sensibilidade e bom senso , e garanto-lhe que sei do que estou a falar !

Tive um acidente enorme , se não fosse o
Dr Amntonio Trindade entre outros , as estas horas sabe Deus como teria ficado com o me que me queriam fazer ...

Mais não digo , acho que o objectivo aqui é aprender , trocar experiências de ambos os lados . a Critica só se for constructiva ...  

Entretanto os jornais publicitam que se usam antibióticos a mais... (Ah, e agora, também antidepressivos a mais.)  

J'agora, só mais uma achega: o último médico a ver o doente é sempre o melhor...  

Acho que há vários aspectos a considerar:
Parece-me claro e consensual que o médico do CS e da privada não fizeram o que deviam já que não auscultaram. No entanto ambos medicaram com antibióticos (não sabemos quais). Ora o auscultar serve fundamentalmente para contribuir para a decisão se é pneumonia ou não (ou seja, serve para decidir se vale a pena receitar antibióticos ou não e não serve para decidir qual o antibiótico). O que seria grave era os médicos não terem auscultado e não terem medicado com antibióticos.
Portanto parece-me que na prática o que falhou foi uma antibioterapia adequada (tipo de antibiótico ou não ter feito um regime completo até ao fim) ou nada falhou e o MPG teve o "azar" de estar infectado com um agente resistente aos antibióticos indicados como de 1º linha para as pneumonias da comunidade.
Pela história fico com a impressão é que ele recorre demasiado tarde ao SU.  

Para mim não é assim tão claro e consensual que os médicos anteriores não tenham auscultado o rapaz. E é justamente aí que eu critico. Diagnosticar e tratar qualquer infecção respiratória sem auscultar o doente está errado. É óbvio que a auscultação faz parte de qualquer exame físico de qualidade. Mas acreditar piamente nalguém que diz que os dois médicos anteriores "não auscultaram", ou melhor ainda "nem olharam bem para ele" e pôr num blog, assinando como médico, não é uma atitude responsável. E ninguém ganha com isso, nem médicos nem doentes. As informações que nos dão são subjectivas e voçês sabem isso.  

Caro anónimo,

Antes de mais, obrigado pela participação e pela discussão (da qual nasce sempre a luz...).
Quanto à minha mensagem, ao contrário das notícias da TVI, foi colocada apenas com o intuito de alertar todos (profissionais e "utentes"), para as especificidades do acto médico, em que uma simples distracção, pode ter resultados complicados. Não pretendia apontar culpados, nem fazer julgamentos na praça pública. Pretendia (e pretende) alertar essencialmente para duas coisas:
1. A necessidade de utilizar os "velhos" métodos da Medicina.
2. A necessidade de ponderar e utilizar os antibióticos com racionalidade.

Não pretendo fazer juízos de valor, sobre se os médicos que o viram antes eram bons ou maus. Acho que erraram, como eu sei que erro todos os dias. Espero poder ter aprendido com este erro que eles fizeram. Propositadamente não coloquei as palavras "negligência" ou "dolo", porque não conheço os colegas, nem sei em que circunstâncias observaram esta criança.

Também não acredito piamente em tudo o que me dizem. Mas neste caso, estou profundamente convencido que a criança (e os pais), estão a contar a verdade, ao dizerem que não foi auscultada, até porque um empiema daquele tamanho não surge da noite para o dia. Mais, foi-lhe dito que tinha uma gripe e prescrito o antibiótico, que iria manter febre durante uns dias e que isso era normal. Podia ser, mas neste caso, infelizmente não era.

Continuo a achar que foi cometido um erro médico (aliás, ainda recentemente foi julgado um processo disciplinar na Ordem, por um caso semelhante - diagnóstico de Pneumonia, sem ter sido feito o exame físico, mesmo com o diagnóstico e o tratamento correctos) ao não ter sido dada a atenção devida ao exame físico e a terem sido prescritos antibióticos para uma "gripe", que ajudaram a mascarar o quadro e a seleccionar agentes resistentes.
Coloco aqui a mensagem, para que todos possam ter mais atenção a este caso. Não é para julgar ninguém, mas se há coisa que sou incapaz de fazer é defender a classe só pela classe.
Quero poder defender os meus colegas, mas porque eles praticaram boa medicina, não porque "por acaso" até acertaram no diagnóstico. E espero que todos possam aprender com os erros...

Abraço  

Bingo , os anti-gripais , explique lá o que é mascarar a gripe e as consequências , já esta explicado no post anterior eu sei , o meu médico, um dia , estava eu constipada , uma grande carraspana , que fui deixando andar , até a infecção bronquica , até ter pieira, mas aqui , mia culpa ...
Qd me perguntou o que tinha tomado , repondi
anti-gripais
ouvi um berro , e ameçou bater-me ( a brincar)

Nunca mais tomei e acho que não deviam ser medicamentos de venda livre  

Sobre a medicina tradicional , neste caso a mais humana , hoje tive um ataque de riso , ao ler a entrevista do Prof Lobo Antunes ; viram... é que simpatico ele não tem nada ....  

Inflizmente tenho que concordar um pouco com o anónimo e o medman. Os doentes, pelos mais variados motivos, muitas vezes não dizem a verdade do que se passou ou (o que não se aplica neste caso)não se apreceberam bem do que aconteceu numa consulta anterior. Isto é frequentíssimo.
Inflizmente tb é frequentíssimo haver colegas que não fazem o mínimo exame físico e que medicam o que julgam ser gripes com antibióticosmas.
Os médicos tal como em todas as outras profissões, têm melhores e "menos bons" representantes e todos nós temos momentos melhores e piores. Não há que ter medo de identifica-los (momentos e médicos) e procurar que os erros não se repitam.

Gostava tb de chamar a atenção para o caso reperido pelo medman do processo ao médico por não ter auscultado um doente com aparente pneumonia. O processo em si tem dois pormenores curiosos: - o processo foi instaurado pelos familiares do doente após ele ter morrido por enfarte do miocárdio julgando que a atitude do médico contribuiu para esse desenlace (o que me parece muito pouco provável); - os colégios da especialidade (pneumonologia e medicina interna) não cordaram entre si se o tratamento que ele tinha dado (3 doses de azitromicina) se era ou não adequado  
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