quinta-feira, dezembro 30, 2004

Histórias do CS (III)

Hoje foi o meu último dia no CS... e entre as baixas fraudulentas, os atestados verdadeiros, os 180 minutos a preencher cabeçalhos de receitas e as declarações médicas necessárias para se utilizar as casas de banho públicas do quartel dos bombeiros, ainda houve tempo para recolher umas histórias...

Mas antes disso, algumas interrogações sobra o (ab)uso dos centros de saúde:
  • De que vale chegar ao CS às 7 da manhã se o respectivo só abre às 8 e a consulta está marcada para as 11?
  • Porque é que alguns utentes se queixam que não conseguem consultas "já há mais de 6 meses" e outros estão lá todas as semanas?
  • Como é que um médico pode "atestar por sua honra" - reparem bem, honra - que a pessoa não pode trabalhar porque lhe dói as costas? Quem mede a dor?
  • Porque é que os antidepressivos são comparticipados se se escrever na receita Portaria 543/2001 e se não se escrever não são?
  • Porque é que os utentes do CS só se lembram dos seus direitos e nunca dos seus deveres?
  • Quem é que inventou a frase: "Eu tenho os meus direitos, porque pago impostos!!!" - Eu também tenho direito a ter um bom ambiente de trabalho, onde me possa sentir bem... E também pago impostos...
E como prometido, algumas histórias...

"- Ó Sr. João, diga-me o seu número de telefone, para ficar aqui no processo, porque pode ser preciso entrar em contacto consigo.
- Como diz Sr. Doutor?
- O SEU NÚMERO DE TELEFONE!
- Ah doutor... Eu agora não tenho telefone... Só tenho senóbel...
- Só tem o quê?
- Senóbel doutor...
- Então dê-me lá o número.
- 91722........."
Ah... Agora já sei o que é um senóbel.... Acho que preciso de comprar um novo!!!

"- Então D. Eduarda, diga lá o que a trás por cá.
- Ó doutor, é para o doutor me passar uma requisição para fazer umas análises ao sangue, aos açucares e ao castrol. E também quero que me passe umas vitaminas..."
Com as TA's não se preocupa ela... Estive mesmo para lhe perguntar onde é que tinha tirado o curso... Já que parecia saber tão bem quais os exames que precisava e qual o tratamento!


"- Então Sr. Vicente. O que vem cá fazer hoje?
- É para fazer as análises de rotina, que já há muito tempo que não faço...
- Ó Sr. Vicente, mas tem aqui análises de há 6 meses.
- Pois é doutor, mas na minha idade, temos que fazer análises 2 vezes por ano. Que eu sei...
- Mas olhe que não é preciso Sr. Vi...
- Ai é, é. Que eu sei. Foram umas doutoras na farmácia que me disseram..."
Olha outro que tirou o curso no vão de escada...

"16h. A meio de uma consulta. TOC TOC
- Sim, quem é?
- Sou eu doutor. Quero que me veja agora, que estou muito doente...
- Espere aí um bocadinho que agora não posso. Estou a meio de uma consulta.
- Ai, tem de ser agora, que estou muito doente...
- Deixe-me terminar esta consulta que falo já consigo.
...
16h10m
- Entre D. Josefa.
- Olhe doutor. Eu estou muito doente e o doutor tem que me passar a baixa e pedir consulta para o hospital. E tenho aqui os exames que o doutor pediu para o doutor pedir.
- Como? Explique lá isso D. Josefa.
- Então... Eu hoje de manhã acordei e doía-me muito as costas. E como o doutor não estava cá de manhã, fui ao da privada. E ele disse que tinha que fazer exames e tinha que vir cá para buscar a "baixa".
- Mas... A D. Josefa já sofre das costas há mais de 10 anos. E tem aqui exames que fez ainda não tem 3 meses...
- Mas esses exames não prestam... Já estão desactualizados. E quero consulta no hospital, por isso tenho que levar exames novos.
..."
Hoje só me saem médicos na consulta. E ainda há quem diga que em Portugal há falta de médicos... E a educação e o respeito??? Não passam de um mito!

"- Boa tarde D. Francisca. Vem cá para renovar a "baixa"?
- É doutor... Mas...
- O que se passa?
- A semana passada fui chamada à junta médica das "doenças prefessionais", e eles disseram que não tinham lá exames e precisavam de exames novos.
- E á para isso que vem cá?
- Não doutor. Eles pediram os exames e já os fui fazer. E depois disseram para aguardar em casa que me chamassem. E ontem, chamaram-me da junta médica para rever a baixa.
- Sim, e então?
- Então, disseram-me que como não tinha exames recentes, me iam cortar a baixa. E eu disse que não podia trabalhar. E eles disseram-me para tratar disso com o "médico de famelia"
- Mas ó D. Francisca, se eles lhe tiraram a baixa, eu não a posso dar outra vez.
- Mas eles disseram que se o Dr. achasse que eu não podia trablhar, para passar a baixa outra vez..."
E agora... Tem baixa ou não tem? A junta de doenças profissionais manteve, a de revisão de incapacidade tirou (porque não tinha exames - quando a doente se queixa de limitação dolorosa dos movimentos do braço). Acho que já há uns dias disse qualquer coisa acerca de comunicação...

E assim vai o SNS... A culpa, de quem é??? Do médico, obviamente, que ainda não se revoltou contra o estado das coisas e continuar a tentar "desenrascar"...

Comentários:

São situações mesmo típicas. Algumas tb mostram o quanto a clinica geral está desprestigiada na população geral e junto dos outros colegas.  

Só queria explicar porque é que as pessoas se dirigem ao Centro de Saúde às 7 da manhã quando têm consulta marcada para as 11..... Aprendi da pior maneira...

Há uns tempos atrás precisei consultar a minha médica de família. Fui ao CS e marquei consulta. Fui informada pela funcionária que a mesma se realizaria às 11 horas. E eu, na minha ignorância de utente pouco assídua do CS, cheguei no dia marcado às 10.45... RESULTADO? Fui atendida às 13.30!!! PORQUÊ? A Sra Doutora começou or chegar atrasada, mas enfim, suponho que acontece... mas o que me fez confusão foi ter percebido que todas as pessoas presentes tinham consulta marcada para as 11!!! Quem vai chegando tira uma senha e a consulta é dada por ordem de chegada... Será escusado dizer que fui a última a ser atendida... Esclarecido?  

Caro anónimo. Este é o tipo de situações em que uma reclamação escrita era acertada (não por as consultas estarem atrasadas, acontece e muitas vezes por motivos justificados, mas por maracrem todos para as 11h e depois ser por ordem de chegada).  
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