segunda-feira, fevereiro 21, 2005

Frieza precisa-se

Perdi o meu segundo doente. Tinha um texto do primeiro para passar, mas a partir de hoje perdeu a actualidade. Morreu-me o meu segundo doente.

Bem, nem foi o segundo, nem era 'meu'! Mas era como se fosse.

Durante o curso vi gente a morrer, mas como aluno que era, quando isso acontecia, havia logo um protocolo instituido, gente que sabia o que era preciso fazer e nós alunos éramos postos de lado.

Nem foi o segundo doente que me morreu no hospital de Lamego. Neste mês e meio, a mortandade tem sido grande. Mas tudos velhinhos(as) com AVCs extensíssimos, DPCOs agudizadas, etc, ou seja coisas que ao se internar já se sabia ao que iam. E têm tido todos o cuidado de falecer durante a noite, sossegadinhos.

Mas hoje, pela segunda vez, morreu-me um doente nas mãos, enquanto o tentávamos salvar. Estoicamente. Doentes que não eram linear que fossem desta para melhor (esperemos). Doentes em que vimos para casa pensar 'e se...'! Se tivéssemos mudado o antibiótico, se tivéssemos...

O título diz frieza precisa-se. Os médicos são acusados de um distanciamento em relação à morte e ao sofrimento. Percebi porquê. Tanto num caso como no outro, a seguir ao trágico desenlace, não dei uma para a caixa. Tenho mais 17 doentes a meu cuidado que precisam da minha atenção exclusiva. Não posso deixar que o que se passa com um, me distraia, me perturbe, me impeça de me dedicar ao seguinte. Mas foi isso que aconteceu. A capacidade de raciocínio e concentração ficaram deveras afectadas. Não pode acontecer.

Comentários:

Infelizmente a vida tem destas coisas... Certas situações em que se nos vemos recompensados pelo trabalho e pelo esforço; outras em que nós nos interrogamos sobre o que andamos por ali a fazer... Talvez já não houvesse nada mais a fazer por esse doente...mas acredito que deva ser horrível morrer alguém nas nossas mãos. Com certeza fizeste o melhor...força!  

E depois vamos para casa e damos voltas na cama a pensar naquele doente. No que poderiamos ter feito mais. Martirizamo-nos à exaustão pelos erros que identificámos, e revemos todos os passos à procura dos que não encontrámos. Sonhamos com eles, acordamos sobressaltados. E o sol levanta-se e vem um novo dia, onde podemos aplicar o que aprendemos ontem e, quem sabe, salvar uma vida.  

O problema é que nos lembramos sempre de qualquer coisa: um sintoma, sinal, alteração analítica; e ficamos a pensar: e se...? Depois prometemos a nós próprios que para todos os doentes no futuro teremos todos os cuidados e quando nos voltar a aparecer algo, por mais pequeno que seja, investigaremos até ao fim. Passados alguns dias já esquecemos as promessas irrealistas que fizemos, mas lembrar-nos-emos sempre do doente.  

Força McCap. A vida continua e os "ses" não alteram nada, nem fazem o tempo voltar atrás. Se fizeste tudo o possível então nada altera isso... O melhor é esqueceres (quando possível).
Bom trabalho!  

em 11/02 comentei um post do "desabafos de um médico" com:
"...Na próxima oprtunidade mostra também o " actor " que tens que ser frente aos doentes, e que transmite aos mesmos (e fundamentalmente aos familiares) o médico indiferente, como és (como são todos os médicos) apelidado / criticado.
Quando os anos passarem, e as estórias se forem acomulando dia a dia, vais ter de te escudar numa couraça de um pouco de indiferença, ou antes, não tanto sentimento, sob pena de ires parar ao Conde Ferreira ou Magalhães de Lemos. São ossos do ofício mais procurado e mais criticado."
Hoje transcrevo-o aqui, pois a questão é idêntica. E ainda só passaram 2 meses desde que tens responsabilidades... esta vida é difícil, não mata (se se tiver juízo)mas perturba, por mais "couraça" e experiência que se tenha. Tenta conjugar a "couraça" com o humanismo, e nunca te esqueças que um doente não é o "cama 32" mas o "Sr X"  

e se... e se... É sempre essa a dúvida que nos fica, quando assistimos a um falhanço da medicina. Será que podíamos ter feito mais e melhor? Prometemos a nós próprios que vamos ter mais atenção, mais cuidado, para que isso não volte a acontecer. Mas acontece... sempre. Por mais "perfeccionistas" que sejamos, há variáveis que não conseguimos controlar e a necessidade de distanciamento em relação ao doente é necessária por nós (pela defesa da nossa sanidade mental), por eles (porque os sentimentos muitas vezes tolhem a nossa capacidade intelectual e o raciocínio mais básico) e pelos outros (que precisam de todo o nosso empenho e "saber).
A juntar a tudo isto há a necessidade de aprender a lidar com a frustração e aceitar que inexoravelmente vão-nos morrer pessoas nas mãos...  
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